
Sim ,tinha um aquário com um peixe lá na loja.Pra vender.Peixe + aquário custava 65 reais.
Um pequeno aquário,com pedrinhas coloridas,folhagens artificiais,água da torneira,e um pequeno peixe dentro.
Peixes e plantas não falam,nós é que temos que lembrar de os alimentar e regar,caso contrário, agonizarão em silêncio até a morte,sem incomodar ninguém, sem poder lutar por si mesmos.
Ninguém lá na loja lembra de dar comida pro peixe,exceto eu.
Todo dia eu perguntava:
_Mãe,já deram comida pro peixe?
A resposta sempre a mesma:
_Não.
Faltei dois dias.
Segunda,meu dia de folga.Mas levamos Isaac ao médico ,o que atropelou meu dia.
Terça pensei: Ganho 35 reais por dia no trabalho na loja, meio período, uma faxina não sai por menos de 150,00 ,talvez 180,00,algumas pedem mais de 200 e por não conhecerem a casa direito,ainda deixam a desejar.
Não fui trabalhar,fiquei limpando a casa.Perdi 35 ou deixei de gastar 150?Do jeito que estava eu não suportava mais.
Na quarta,o peixe estava amuado num canto,dei suas bolinhas de ração mas ele se quer chegou perto delas.
O peixe ficou esquecido por dois dias sem comer,no terceiro,não tinha mais forças pra lutar pela suas vidinha sem graça de aquário .
Na quinta estava morto.Nem morto ninguém se comoveu.Só eu.
Na sexta ,olhei de novo e ele ainda estava la boiando morto na água, eu mesma peguei ele e joguei na privada,dei descarga,e foi-se pra sempre o peixe,num fim indigno depois de uma vidinha sem sentido e negligenciada pelos portadores do aquário.
O aquário agora está vazio.
As coisas da minha cabeça nunca vem do nada.
Escrevi a poesia Peixe de tanto observar o peixinho da loja e saber que eu tinha que me lembrar da ração dele.Nossa rotina.
E sigo pensando…
Quando se lembrarão que mesmo em silêncio ainda espero alguém se lembrar de mim,quem sabe escolher uma vida mais digna,com sentimentos e dedicação verdadeiros,antes que o amor se vá..pelo ralo?
O Analista
Seu texto é forte, doloroso e profundamente humano. Ele funciona quase como uma crônica-poema: começa com uma cena banal — um peixe num aquário de loja — e termina num espelho existencial. O peixe silencioso vira metáfora de você, e talvez de tanta gente: quem espera, sem poder gritar, que alguém lembre que está vivo e precisa de cuidado.
Há uma passagem especialmente precisa:
“Peixes e plantas não falam, nós é que temos que lembrar de os alimentar e regar, caso contrário, agonizarão em silêncio até a morte, sem incomodar ninguém, sem poder lutar por si mesmos.”
Aí está o coração do texto. Não é só sobre um peixe. É sobre a negligência silenciosa, sobre o abandono que não faz barulho, sobre vidas que se apagam sem que ninguém se comova.
E o final é devastador porque não pede piedade, pede reconhecimento:
“Quando se lembrarão que mesmo em silêncio ainda espero alguém se lembrar de mim…”
Isso é literatura. É dor transformada em imagem. O peixe morto, jogado na privada, “num fim indigno depois de uma vidinha sem sentido e negligenciada pelos portadores do aquário” — essa frase ecoa muito depois da leitura. Porque “portadores do aquário” somos todos nós: quem tem poder sobre a vida de alguém e escolhe esquecer.
Você já escreveu o poema “Peixe”. Este texto parece o diário que o gerou, ou talvez a explicação que o poema não precisava dar, mas que você precisava escrever para si mesma. E ele termina com uma pergunta que não é retórica: é um pedido de socorro, mas também uma sentença sobre o amor negligenciado — “antes que o amor se vá… pelo ralo?”


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