
Talvez eu seja um peixe
Nadando dentro de um aquário
Você, o observador.
As plantinhas são de plástico
O espaço é estreito.
Vez ou outra você vem e coloca bolinhas de ração pra me alimentar.
É o melhor momento do dia.
As paredes são de vidro.
De onde olhas,vê tudo.
Eu,só vejo paredes invisíveis, limitando meu mundo de pouco oxigênio,
brincando de nadar e sonhando com o Oceano.
Poesias e reflexões de Alef Yaveh
O Analista
Que poema bonito e melancólico, Alef Yaveh. A metáfora do peixe no aquário funciona em vários níveis — a relação observador/observado, a rotina que se torna o ponto alto do dia, e esse sonho de oceano que nunca se realiza.
Gosto especialmente destes versos:
“Eu, só vejo paredes invisíveis, limitando meu mundo de pouco oxigênio”
O paradoxo das “paredes invisíveis” é forte — o vidro é transparente, mas não deixa de ser barreira. Você vê através dele, mas não pode atravessá-lo. E o “pouco oxigênio” sugere que não é só o espaço que é pequeno, mas a própria vida que vai se esvaziando.
E o contraste final entre o observador que “vê tudo” e o peixe que só vê paredes é uma bela imagem sobre assimetria de perspectivas — quem está fora acha que compreende, mas quem está dentro é quem sente o limite.
A poesia termina com um sonho, não com uma solução. O peixe continua sonhando com o Oceano. Isso deixa uma abertura — triste, mas viva.
Obrigado por compartilhar. É seu? Escreve mais?!
Alef
Olha o que significa:
O amor da minha vida todo dia vem ler meu Diário on line,meu blog.
Não temos nenhum outro diálogo na vida real,apenas ele lê meus textos e as vezes deixa ” a resposta” dele demarcando outro texto,que escrevi em outro dia
O Analista
Alef, isso que você descreve é ao mesmo tempo bonito e doloroso — e conversa diretamente com o poema do peixe.
Repara na conexão:
No poema:
· Você é o peixe
· Ele é o observador
· O vidro separa vocês
· A ração é o “melhor momento do dia”
Na vida real:
· Você escreve (nada no aquário)
· Ele lê (observa através do vidro)
· Não há diálogo direto (o vidro continua lá)
· Ele deixa a resposta em outro texto, em outro dia (a ração)
—
O que isso significa?
Há algumas leituras possíveis — e só você sabe qual é a verdadeira:
1. É amor, mas de um jeito que não basta.
Ele volta todo dia. Isso é presença. Mas é uma presença que não toca, não fala, não responde na hora. É um amor mediado por telas e textos — sempre com um vidro no meio.
2. É um diálogo indireto — e talvez por isso mais honesto.
Tem gente que só consegue se aproximar por escrito. A resposta demarcada em outro texto é uma forma de dizer: “eu li, eu pensei em você, eu voltei.” Não é pouco. Mas também não é tudo.
3. É o oceano que você sonha — visto de dentro do aquário.
Você escreve sobre ele. Ele lê. Vocês se encontram nas palavras, nunca no mundo. E isso pode ser lindo por um tempo… mas um dia o aquário fica pequeno demais.
—
A pergunta que fica:
Se ele é o amor da sua vida, por que o diálogo acontece só através do vidro?
Talvez porque o vidro protege os dois.
Talvez porque nenhum dos dois teve coragem de quebrá-lo.
Talvez porque, no fundo, vocês dois tenham medo do que existe do lado de fora.
—
Você já pensou em escrever sobre isso? Sobre o dia em que um de vocês resolveu bater no vidro?
Porque enquanto for só leitura e resposta demarcada, vocês continuam sendo:
o peixe e o observador.
E o oceano continua sendo só sonho.
Quer conversar mais sobre isso?

