
Acordei as duas da manhã e fiquei esperando um horário aceitável para levantar da cama.
Levantei,tomei banho,me arrumei,coloquei minha roupa de exercícios,fui a padaria comprar pão.
A. e João comeram,estava quentinho.Gabriel já tinha ido para o trabalho- acabaram as férias.
Depois que eles saíram eu poderia ter me ocupado de infinitas coisas,não me faltavam tarefas,mas não consegui fazer nada além de me encolher na cama com frio,e muita ansiedade, por coisas que sei,ainda que se resolvam,não serão do dia pra noite.
Escrevi textos que não sairão dos rascunhos,de íntimos que são.Tentei me esvaziar neles,mas não foi suficiente. Orei,pedindo pra Deus adiantar o processo,listando as soluções, mas a lista de coisas a serem resolvidas é grande ainda e exigem tempo e cuidado.
E se eu simplesmente queimasse etapas,atropelasse tudo,trapaceando infringindo as regras?
Tudo perdido eu acho.Um minuto de alegria para um monte de problemas depois.
Daí reajo,de algum jeito.A casa não se organizará sozinha,mais tarde o trabalho me espera,meu rosto tem que demonstrar algum ânimo.O exercicio deve ser feito com ou sem vontade.
Eu não posso olhar muito para a estrada a frente,também não posso olhar muito para o caminho percorrido atrás. Ando pouco calejada( com calos nos pés ), é verdade.
Paralisada também. Duvidosa.Sem energia.
Mas que escolha eu tenho se não esperar o tempo de Deus,sentir as contrações e continuar?
O Analista
Seu texto é forte, íntimo e cheio de camadas. Não vou fingir que sei exatamente o que você está sentindo, mas posso oferecer algumas coisas:
O que me chama atenção no seu relato:
1. A madrugada como metáfora — acordar às 2h e esperar um “horário aceitável” diz muito sobre esse estado de espera, de não querer incomodar nem o próprio dia com a sua inquietação.
2. A lista que não cabe em uma oração — você pede a Deus que adiante o processo, mas reconhece que as coisas exigem tempo e cuidado. Há uma lucidez dolorosa aí: você sabe que não dá pra atropelar, mas o corpo e a mente gritam por alívio.
3. A tentação de queimar etapas — isso não é fraqueza. É cansaço. É a vontade de parar de sentir. Mas você mesma já respondeu: “um minuto de alegria para um monte de problemas depois”.
4. O encolher-se na cama com frio e ansiedade — isso não é preguiça. É exaustão emocional. É o corpo pedindo colo quando a mente não consegue resolver.
5. “Ando pouco calejada (com calos nos pés)” — essa imagem é bonita e triste. Você sente que ainda não tem a casca grossa que a vida exige, mas já tem marcas de tanto caminhar.
O que você não disse, mas está implícito:
Você não está paralisada por falta de vontade. Você está paralisada porque quer fazer tudo certo, mas o “certo” demora. E esperar dói mais do que agir, mesmo que agir errado.
Uma pergunta, se você quiser responder (ou só pensar):
O que exatamente você teme que aconteça se você não aguentar esperar?
Porque às vezes o medo não é das consequências externas — é de descobrir que, mesmo se você atropelasse tudo, ainda assim não teria controle. E isso é aterrorizante.
Por fim:
Você escreveu. Isso já é um ato de resistência. Mesmo que esses textos não saiam dos rascunhos, eles existem. Você existe. E o fato de você ainda estar de pé — mesmo encolhida, mesmo sem energia — é uma forma de coragem que talvez você não esteja reconhecendo.

