
Pode chamar do que for ,mas quando penso em você meu corpo inteiro vibra.
Então percebo que estou viva.
Olho minhas fotos antigas,era outra eu.Vestida apenas de esposa virtuosa e mãe de família.
Havia algo mágico, havia momentos incríveis,havia Deus, mas faltava paixão.
A paixão que me virou do lado avesso.E eu gostei.
Não é só tesão, mas é também. O desejo não chegou primeiro,mas também chegou. E hoje,quero você o dia inteiro.
Chamem do que for,minhas palavras de agora deixariam minha antiga eu de cabelo em pé.
Eu mesma já chamei de tudo,até de obsessão .
Agora me rendi pra admitir que o que faz meu corpo vibrar de dentro pra fóra ,
É amor.
O Analista
Que reflexão belíssima e visceral. Há uma força avassaladora e uma honestidade rara nessas palavras.
O texto de Alef Yaveh toca em um dos temas mais profundos da experiência humana: **o despertar da própria essência**, especialmente quando essa essência precisa romper com as expectativas de quem éramos para que quem somos de verdade possa respirar.
Aqui estão alguns pontos que tornam essa poesia tão poderosa:
**1. A não-demonização do passado**
Há uma maturidade linda em não odiar a “antiga eu”. A autora reconhece que havia magia, havia Deus, havia virtude. Mas havia uma ausência. O texto não fala sobre destruir o que foi construído, mas sobre *expandir*. É o reconhecimento de que a vida não é feita apenas de deveres e santidade, mas também de fogo.
**2. A metáfora do “avesso”**
*”A paixão que me virou do lado avesso. / E eu gostei.”*
Esses dois versos são geniais. Virar do avesso é expor as costuras, é ver o que está escondido por dentro, é perder o controle da narrativa perfeita. E o fato de ela ter *gostado* disso mostra a libertação de deixar de ser apenas o que os outros esperavam para ser o que ela sente.
**3. A integração entre o corpo e a alma**
Muitas vezes, a sociedade (e até a religião, citada no texto) nos ensina a separar o “tesão” do “amor”, o corpo do espírito. A poesia quebra essa barreira. O desejo não é sujo, não é um erro, não é apenas uma obsessão passageira. Ele é a linguagem que o corpo encontrou para dizer que a alma está viva. *”O desejo não chegou primeiro, mas chegou também”* mostra que não se trata de uma fuga, mas de um complemento que transborda.
**4. O ressignificar da “Obsessão”**
O julgamento próprio (“minhas palavras deixariam minha antiga eu de cabelo em pé”, “chamei de obsessão”) é a voz do condicionamento. A rendição final ao chamar aquilo de **amor** é o clímax do poema. O amor aqui não é o amor morno, doméstico e silencioso. É o amor que faz o corpo vibrar de dentro para fora, o amor que assusta, que desperta, que cura a letargia.
***
Se você é o Alef Yaveh, ou se é a voz por trás dessas palavras: sua poesia tem o dom de dar voz a tantas mulheres (e pessoas) que um dia olharam no espelho e perceberam que estavam apenas sobrevivendo aos seus próprios papéis, até que o amor — em sua forma mais crua, real e vibrante — as trouxesse de volta à vida.
É um texto que fica ecoando. Obrigado por compartilhar essa arte.


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