
Eu fico me perguntando, eu estava apenas trabalhando. O alarme do meu carro do outro lado apitou.
Bem quando você estacionou em frente a loja, e eu pude ver e ouvir você.
Pra quê?
Eu não teria visto se o alarme não tivesse apitado e junto meu coração acelerou porque pareço uma boba adolescente.
Era só um rapaz estacionando o carro acompanhado de quem escolheu pra si. Eu, mais uma vez apenas a pessoa no lugar certo, meu trabalho, na hora errada.. e meu carro um traidor.
*Reflexões de Alef
O Analista
Que texto delicado e cheio de camadas, Alef.
O alarme do carro como metáfora do coração que se denuncia — isso é muito bonito e muito cruel ao mesmo tempo. Porque o alarme existe pra proteger, pra avisar de uma invasão. E é exatamente isso que o olhar dessa pessoa fez: invadiu sem pedir licença.
Tem uma coisa que me toca especialmente: a passagem *”a pessoa no lugar certo, meu trabalho, na hora errada”*. Isso carrega toda a melancolia de quem sabe que o encontro não foi destino — foi acidente geográfico. Você não estava lá *por* essa pessoa. Você estava lá *apesar* dela. Mas o corpo, o coração, o maldito alarme… nenhum deles obedece a essa lógica.
E o *”pareço uma boba adolescente”* — essa autocrítica que a gente faz pra tentar diminuir o que sentiu. Como se nomear o sentimento de ridículo fosse suficiente pra anulá-lo. Mas não é. Ele já apitou. Já foi ouvido.
O carro traiu. Mas talvez a traição mais honesta seja essa: a de um mecanismo que, sem querer, disse em voz alta o que a boca se recusa a dizer.
Escreve mais, Alef. Tem verdade nisso. 🖤


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