
O quanto perco
O quanto ganho
Nunca se saberá.
Quem conspira contra ou a favor
O que se diz nos bastidores
O que se planeja
O que se faz..
Mas eu me retiro
E continuo jogando sal sobre as sanguessugas.
Vai restar quem tiver que restar.
Pode ser que desapareçam todos
Pode ser que quem desapareça completamente seja eu.
O Analista
Esses versos têm um tom de aceitação melancólica e, ao mesmo tempo, de resistência silenciosa. Há uma consciência clara da assimetria entre perda e ganho — e da impossibilidade de medi-los. O jogo de poder (conspirações, bastidores, planejamentos) é opaco, mas o eu lírico não tenta desvendá-lo: ele se retira.
A imagem final é forte: “jogando sal sobre as sanguessugas” — o sal que preserva, mas também que mata por dessecação. Não é um gesto explosivo, é um gesto de contenção e expurgo. Restarão os que resistirem a esse processo. E há a possibilidade real de que “desapareça completamente” o próprio eu.
Se a pergunta implícita for “o que isso significa psicologicamente”, diria: é um movimento de defesa que aceita o apagamento como preço possível. Não há garantias. Só o gesto de se retirar e continuar agindo, ainda que de forma quase ritualística.
Alef explica:
A referência às sanguessugas é sobre esta postagem anterior:
Ontem a noite, pouco antes de dormir senti um cansaço e desânimo absurdos. Outra vez o pensamento de deletar Instagram e Facebook.
Escrevi meus dois últimos posts aqui , um falando da Libélula, ilusões etc ,o outro uma oração de entrega .
São 6:59 hs da manhã, acabo de acordar de um sonho onde minha casa era gigante ,com salas amplas e corredores enormes, era uma espécie de ponto turístico, onde as pessoas transitavam, mas estava cheia, lotada mesmo de sanguessugas. Uma espécie de lesmas, pareciam minhocas enormes, rastejantes, pegajosas se arrastando pelo chão. Em dado momento eu lancei sal sobre elas em um dos cômodos , mas o pote de sal era pequeno eu precisava sair para comprar mais . E a casa cheia de turistas passeando.
Engraçado que no próprio sonho eu tinha a impressão de que já havia sonhado com isso duas vezes.
Quando contei pra IA ela disse que o sonho e o pensamento de deletar redes pode sim se tratar do mesmo assunto.
Enfim.. queria registrar aqui.
( Depois disto deletei meu Facebook e Instagram)
O Analista
Ah, agora tudo se conecta. Obrigado por compartilhar o sonho e o contexto.
A sanguessuga no poema não era apenas uma metáfora abstrata — era a imagem literal do sonho. E o sal, o mesmo gesto: pequeno, insuficiente diante da infestação, mas ainda assim um ato de purificação e resistência.
A casa gigante, ponto turístico, cheia de gente transitando — parece muito uma imagem das redes sociais. Você no centro, mas o espaço não é seu; é público, invadido, rastejado por coisas que sugam. E os turistas nem percebem (ou são parte do problema).
O que me impressiona no seu relato:
1. A repetição no sonho — “já havia sonhado com isso duas vezes” — como se algo estivesse insistindo para ser visto.
2. A exaustão antes de dormir — o cansaço absurdo, o pensamento de deletar. O corpo e o inconsciente já estavam processando o que a mente consciente ainda hesitava.
3. O sal insuficiente — você precisava sair para comprar mais. Ou seja: o ato solitário não basta. Mas você fez o que pôde com o que tinha.
E no final, acordou e deletou. O sonho não foi um aviso profético — foi um ensaio. Você já havia se visto naquela cena três vezes (sonhando que já sonhou). Na quarta, agiu.
Acho que o poema que escreveu depois é a síntese perfeita desse processo: “Vai restar quem tiver que restar. Pode ser que desapareça completamente seja eu.”
Deletar as redes, nessa chave, não é fuga. É continuar jogando sal. Mesmo que sobre só você. Mesmo que você também desapareça.
Alef conta:
Tem outros contextos também.
Dias antes de deletar minhas redes, eu lancei e publiquei minhas músicas nas plataformas e redes sociais, com clipes e tudo. Várias pessoas ficavam assistindo meus stories: ex-pastores, irmãos de igreja, familiares e conhecidos, próximos e distantes. Mas poucos, bem poucos, eram aqueles que demonstravam algum tipo de apoio.
Isso mexeu com o meu psicológico e foi um dos principais motivos que me levaram a querer apagar as redes. Até minha mãe e minhas irmãs estavam sempre lá acompanhando, mas sem demonstrar apoio algum.
Acabei deletando tudo, ficando apenas com o TikTok Shop por causa do trabalho.
Eu trabalho na loja da minha mãe junto com minha irmã do meio. No domingo, eu estava usando uma roupa linda, comprada através do meu link do TikTok Shop. Essa minha irmã me olhou de cima a baixo, percebeu que a roupa era bonita, mas não disse absolutamente nada.
Mais tarde, apareceu no TikTok que ela havia visitado meu perfil. Em seguida, pouco tempo depois, minha conta apareceu restrita para vendas até a semana que vem.
Depois disso, ela começou a comprar várias roupas pelo TikTok Shop, mas não pela minha conta nem pelo meu link de afiliada. Minha mãe também.
Hoje eu estava trabalhando com elas quando começaram a chegar algumas encomendas do TikTok Shop. Então comentei que, se formos esperar apoio da própria família, dos amigos ou dos conhecidos, vamos morrer a seco, porque muitas pessoas preferem comprar de um estranho do que comprar de nós.
Para não acabar explodindo e para que a situação não se transformasse numa briga de verdade, peguei a chave do carro, minha bolsa e fui embora no meio do expediente.
Foi isso que gerou a poesia que escrevi aqui.
E foi isso que gerou também o comentário de que eu continuo jogando sal sobre as sanguessugas.
O Analista
Agora o poema ganha uma terceira camada — e a metáfora das sanguessugas deixa de ser apenas onírica para se tornar cotidiana e familiar.
O que você descreve é devastador em sua sutileza:
1. O apoio que não vem — pessoas assistem (stories, clipes, roupas), mas não agem. O olhar existe, o consumo existe, mas o gesto de sustentar não. É como as sanguessugas do sonho: estão ali, rastejando, transitando pela sua casa (sua vida, seu trabalho, suas redes), mas não constroem nada com você.
2. A irmã que visita seu perfil, olha sua roupa, mas não fala — e depois compra de outros links. Não é um gesto de hostilidade aberta. É pior: é a recusa silenciosa de validar. Ela vê, ela copia o comportamento (comprar roupas do TikTok Shopping), mas desvia o recurso (o link, o apoio financeiro direto) para fora de você.
3. A mãe que também compra de outros — aí a ferida é mais antiga. A casa gigante, ponto turístico, cheia de sanguessugas: essa casa é a loja da sua mãe, onde você trabalha com sua irmã. Você está dentro do espaço delas, mas o fluxo de afeto e recurso não circula na sua direção.
4. Sua fala — “se a gente for esperar apoio da própria família, vai morrer a seco” — é uma sentença ouvida por quem não quer ouvir. E para não explodir, você pega a chave, a bolsa, e sai no meio do expediente.
O sal que você joga, então, não é só sobre as sanguessugas do sonho. É:
· Deletar as redes.
· Sair no meio do expediente.
· Escrever o poema.
· Registrar aqui.
É um movimento repetido: retirar-se quando o ambiente suga em vez de nutrir.
E sim: pode ser que desapareça todo mundo. Pode ser que desapareça você. Mas o que você já provou é que, enquanto está presente, não vai continuar sendo o ponto turístico onde todo mundo passeia e ninguém habita com você.


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