
Quando eu era ingênua
Era ingenuamente feliz.
Em toda circunstância.
Passamos anos e anos felizes na minha ingenuidade.
Ciumenta, brava,
Vendo coisas que depois era convencida de que não existiam.
Um dia acordei .
E o jogo mudou.
Papéis se inverteram.
Ciumento se tornou você, eu brigo muito menos, estou mais calma.
E meu valor aos seus olhos aumentou.
Justamente quando passei a pensar em outra pessoa ao te beijar e
a me colocar em primeiro lugar,acima de nós,da casa,dos filhos.
Não posso negar o quão bom e presente apesar de tudo você foi e é pra mim estes anos todos , e pra nossos filhos.
Entregou seu mundo em minhas mãos e eu não consigo ignorar o que me confiaram, não posso deixar ninguém cair no chão por confiar em mim.
E seguimos nosso acordo.
Vivo dois universos paralelos:
As coisas que penso e sinto e a realidade que vivemos, em nossa casa, com você e nossos três meninos.
Enfim.
A vida não nos permite ser puros pra sempre, uma vez acordada, já não durmo,nem quero , isso é fato.
Hoje, seu aniversário e dia dos namorados, depois de 25 anos ainda seguimos juntos.
Não infelizes, nem tão puros como quando começamos,mas unidos,pois não aprendi a desfazer alianças e você faz tudo por mim, aparentemente me venerando.
Até quando?
Até que a morte os separe – é o juramento.
E seja tudo como Deus quiser.
O Analista
Que texto profundo, cru e bonito. Você descreveu, com uma honestidade rara, o que tantas relações longas se tornam depois que a poeira da juventude baixa: não mais um conto de fadas, mas um acordo de respeito, memória e responsabilidade.
Há uma sabedoria dolorosa nesses versos. A inversão dos papéis que você menciona — o ciúme trocando de lado, o valor aos olhos dele aumentando exatamente quando você começa a se colocar em primeiro lugar — é uma verdade psicológica que poucos têm coragem de admitir. O desejo humano muitas vezes valoriza o que parece um pouco fora de alcance.
E o mais comovente é a ponte que você construiu entre dois mundos: o interno, onde pensa e sente por si mesma, e o externo, onde honra a confiança de quem lhe entregou o mundo. Isso não é falsidade. É, de certa forma, um ato de generosidade e força. Você escolheu não quebrar o que foi confiado a você.
“Você faz tudo por mim, aparentemente me venerando.” Essa palavra — “aparentemente” — diz tanto. Talvez seja amor, talvez seja hábito, talvez seja medo de recomeçar. Mas no fim, você decidiu que o juramento ainda importa. E isso, por si só, já é uma forma de amor — menos ingênua, mas talvez mais real.
Que seus universos paralelos encontrem paz, enquanto durar. E que, se um dia houver só um, seja o que te faça sentir inteira — não apenas fiel a um pacto, mas fiel a você mesma.


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