
Eu acordo no meio da noite , são quase duas da madrugada.
Começo a fazer alguns exercícios deitada, depois acendo a luz amarela perto do espelho, pego os halteres e começo a me exercitar. Um pouco de agachamento. Meu corpo pede movimento, pra não se perder em gordura novamente, inchaço e retenção liquida.
Mas minha mente me acusa audivelmente: não é hora de fazer exercícios, ele vai se incomodar.
Ele realmente tenta me parar, pedindo beijo, tentando me abraçar. Além de não se mover, quer me paralisar enquanto junto as forças que tenho pra me salvar do sedentarismo e do antigo corpo que ameaça voltar se eu não manter a disciplina, a qualquer hora que sentir agir. Se fosse sozinha-penso- não teria que dar satisfações a ninguém.
Vou a cozinha beber água, mas a pia está cheia de louça e a mesa de restos de comida e bebida. Muita gente passou por ali, aumentou a bagunça e deixou.. meu copo de água fica pra depois de lavar e limpar.
O filho do meio anda pela noite, bagunça na sala, já que está acordado, mando arrumar
Enquanto lavo a louça aquela angústia volta:O que estou fazendo da minha vida? Por quê me sinto num cárcere e sinto como se meu marido fosse o carcereiro? Um carcereiro gentil mas ainda assim um carcereiro? Será que fora desta cela não seria pior? Será que não estou de fato protegida aqui?
Mas então por que a vida perdeu o sentido, está tão sem graça? É acordar, limpar, trabalhar, voltar, jantar e dormir? Com o carcereiro do lado com seus braços pesados sobre mim mostrando que lhe pertenço e lhe devo satisfação. Me pedindo beijos e abraços com uma voz suave que mais me irrita do que me conforta e uma dependência emocional que põe sobre mim a responsabilidade de suprir e corresponder?
E sim, também sou dependente da dependência emocional dele, porque parece que não há amor em nenhum outro lugar do mundo pra mim senão nele, ninguém que me venere como ele, que se importe e sofra por mim como ele.. e isso me irrita, me aprisiona, mas também me faz sentir importante em algum lugar.
Pra piorar a obsessão, paixão, desejo, seja lá o que for, por aquela pessoa que não é minha e não tem nada a ver comigo. E está tudo errado, tudo. O que sinto, o que penso,esta angústia .. até quando ?
Oro um pouco em línguas enquanto termino a louça.
Bebo 2 garrafinhas de 500ml de água.
Sento e escrevo este texto.
São 3:18.
*Diário de Alef
O Analista
Este trecho do seu diário é um retrato poderoso e angustiante de um momento de clareza na quietude da noite. A escrita captura perfeitamente a tensão entre o desejo interno de movimento, autonomia e autopreservação e as demandas externas (e internalizadas) de um papel que sente ser restritivo.
Há uma guerra silenciosa acontecendo em várias frentes:
1. O Corpo vs. a Imobilidade: A urgência de se exercitar, de não “se perder” novamente, é uma luta pela identidade e integridade física. É um ato de rebelião contra a ameaça do “antigo corpo” e do sedentarismo.
2. A Autonomia vs. o Cárcere Afetivo: A metáfora do cárcere é profundamente reveladora. Você identifica com clareza a dupla face da prisão: é um lugar de proteção e veneração (“ninguém que me venere como ele”), mas também de perda de sentido, obrigação e um peso que paralisa (“braços pesados sobre mim”). A “dependência da dependência” dele é uma percepção crucial – é reconfortante ser necessária, mas intoxicante quando essa necessidade se torna a única fonte de significado.
3. A Rotina vs. o Sentido: A pergunta “O que estou fazendo da minha vida?” ecoa no cenário doméstico (a louça, a bagunça). Os ciclos de cuidar dos outros e do espaço parecem esvaziar, em vez de preencher.
4. O Desejo Proibido vs. a Realidade: A menção à “pessoa que não é minha” surge como um farol de um desejo puro e inatingível, que apenas intensifica a sensação de que a vida real está “tudo errado”. É a antítese do cárcere gentil: algo livre, mas inacessível.
O ato final – orar em línguas, beber água, escrever – é profundamente significativo. São três formas de buscar um fluxo, uma purificação e uma expressão que a rotina e a relação sufocam. A água limpa por dentro, a oração busca uma conexão além das palavras conhecidas, e a escrita cria um espaço todo seu, onde você não deve satisfações a ninguém.
Você escreve às 3:18 da madrugada, a hora em que as paredes são mais finas e as verdades, mais audíveis. Este texto é mais do que um desabafo; é um documento de resistência. Nele, você existe inteira, complexa e inquieta. Você se nomeia, mesmo que só para si mesma, no silêncio da noite.
Não há resposta fácil para “até quando?”. Mas o fato de você fazer a pergunta, de ouvir a acusação da mente e ainda assim pegar os halteres, lavar a louça e, sobretudo, escrever, mostra que a força para se salvar não se apagou. Ela só busca, desesperadamente, uma nova forma de existir.
Continue escrevendo. É na página do diário que você pode ser, sem culpa, a única habitante e arquiteta do seu próprio mundo.


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