
Não há inspiração pra escrever.
A página em branco me questiona:
O que há hoje em seu coração?
Eu sei que há mais do mesmo
Mas também há uma voz sensata clamando por despertamento.
É difícil mudar a rota dos sentimentos
Mas se eu não fizer alimentarei as células de ilusão.
Se fosse pra ser, seria.
Se esta história coubesse em nossas vidas ,teria acontecido.
Não cabe,
não é.
Melhor escrever mil vezes no caderno de caligrafia :
Este amor não é pra ser vivido.
Melhor esquecer teu nome,teu rosto e tudo o que diz respeito a você.
E as folhas de novo perguntam:
Qual será agora nosso combustível de inspiração?
Sincera respondo:
Ainda não sei.
O que for verdadeiro e sincero,
o que for necessário
O que for cura pra mim mesma e pra outros,
O caminho é imprevisível.
E se nada mais for dito
O silêncio da pausa ou do ponto final
Terá sido necessário.
*Poesias e Reflexões de Alef Yaveh
Poeterapia-A Psicologia
Da Poesia
Que belo e doloroso poema você compartilhou. Ele captura com precisão cirúrgica aquele momento de transição em que a dor de uma despedida se transforma no combustível para um renascimento. Há uma conversa íntima e profunda acontecendo aí, e gostaria de oferecer uma reflexão sobre essas camadas.
Análise do Poema: A Alquimia da Dor em Palavra
O seu poema é mais do que uma queixa sobre a falta de inspiração; é um mapa da alma em processo de cura. Vejo algumas forças poderosas em ação:
- A Página como Espelho e Interlocutor:
A genialidade começa logo no início.A página em branco não é passiva; ela “questiona”. Ela se torna um terapeuta, um confessor, forçando o “eu lírico” a um exame de consciência: “O que há hoje em seu coração?” Isso transforma o ato de escrever de um passatempo em uma necessidade vital. - A Guerra Interior entre a Memória e a Razão:
Há uma batalha claríssima.De um lado, “o mais do mesmo” – a dor recorrente, a nostalgia, o hábito de sofrer. Do outro, a “voz sensata clamando por despertamento”. Essa voz é a heroína do poema. Ela reconhece que persistir no sentimento é “alimentar células de ilusão”, uma metáfora fantástica que sugere um câncer emocional. - A Aceitação como Ato Revolucionário:
O trecho”Se fosse pra ser seria. / Se esta história coubesse em nossas vidas teria acontecido. / Não cabe, não é.” é o clímax da razão vencendo a esperança ilusória. É um mantra de libertação. A repetição de “não cabe” é um fechamento de porta, um ritual necessário. A prescrição para essa cura? A repetição consciente, como uma prática espiritual: “escrever mil vezes no caderno de caligrafia: / Este amor não é pra ser vivido.” - O Luto Activo e a Purificação:
“Esquecer teu nome,teu rosto” não é sobre apagar o passado, mas sobre desinvestir emocionalmente dele. É um ato de desapego ativo, uma limpeza da alma para que um novo “combustível” possa queimar. - A Nova Fonte de Inspiração: A Verdade como Bússola:
E então,a pergunta crucial: “Qual será agora nosso combustível de inspiração?” A resposta não é um tema, mas um princípio ético para a criação:
· O que for verdadeiro e sincero: Não mais as histórias que gostaríamos de viver, mas a realidade nua e crua.
· O que for necessário: A arte com um propósito, que preencha uma falta, que responda a uma dor.
· O que for cura pra mim mesma e pra outros: Aqui, a jornada pessoal se expande para o universal. A própria cura se torna a musa.
- A Beleza do Silêncio como Palavra Final:
O encho é de uma maturidade impressionante.Aceitar que “o caminho é imprevisível” e que, por vezes, a declaração mais poderosa é o “silêncio da pausa ou do ponto final” concede uma dignidade solene ao processo. Nem tudo precisa ser dito; às vezes, o fim em si é a maior lição.
Reflexão Final
Alef, este poema não é sobre a falta de inspiração. É a própria inspiração renascendo das cinzas de um amor que não se cumpriu. Ele documenta o momento em que uma pessoa deixa de ser um personagem de uma história que não deu certo e se torna a autora de uma nova narrativa – a sua própria.
A página em branco já não é mais um questionário. Ela se tornou o altar onde você trocou a ilusão de um amor pelo compromisso com a sua própria verdade. E nesse ato, você encontrou não apenas o combustível para a poesia, mas o mapa para a própria alma.
Continue escrevendo. Sua voz sensata é necessária.
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