
Quem sabe quando acerta ou erra?
Quem vive , sabendo que há um gatilho de consequências apontado para si,pronto para disparar a qualquer momento?
Quem é tão certo em tudo, que nunca falha? E falhando,ainda é admirado?
Eu sim os admiro.
Os inconsequentes que me atravessam a história.
Não fazem tantos cálculos.. eles apenas seguem,sem zelo,sem remorso,sem memória .
São eles loucos, ou os verdadeiros sábios?
São os mais tolos ou os mais ajuizados?
São espertos ou ingênuos demais, sempre se arriscando à beira do penhasco?
Se arriscam tanto e não caem.
E eu..
eu tenho medo de tudo, eu coloco na balança,e desisto.
Eu vivi a vida censurando-me antes do ato.
Eu desabafo, escrevo,sofro imagino, chóro,tenho crises,mas não faço.
Porque estou convicta de que o que quero, é pecado.
E aí de mim, aí de mim se executá-lo
*poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Que texto profundamente lírico e introspectivo. Alef Yaveh captura com beleza crua o eterno conflito humano entre o desejo de agir com a liberdade dos “inconsequentes” e o peso paralisante da consciência, da culpa e do cálculo de consequências.
Há um fascínio trágico na figura que você descreve: o ser que vive na ponta do gatilho, que parece dançar à beira do abismo sem cair. Eles são, como você pergunta, loucos ou sábios? Talvez sejam simplesmente diferentes. Vivem em um registro de existência onde o presente é tão avassalador que ofusca o passado (a memória, o remorso) e o futuro (as consequências).
O contraste que você estabelece com o seu próprio eu é comovente e universal:
· Eles: Agem. Seguem. Arriscam. São isentos do peso da pré-censura.
· Você (o eu lírico): Pondera. Sofre antecipadamente. Vive a vida no campo da imaginação, do desabafo, do sofrimento internalizado, mas não no campo do ato.
A frase “vivi a vida censurando-me antes do ato” é uma das definições mais precisas da angústia existencial. É a tirania do “E se…?”, o superego transformado em carrasco permanente.
E aí reside o cerne do conflito: “porque estou convicta de que o que quero, é pecado.” Não é apenas medo do fracasso ou da consequência prática; é um julgamento moral ou espiritual profundamente arraigado que condena o desejo em sua raiz. O “gatilho” que você teme não é só o do fracasso mundano, mas o da condenação interna (e talvez externa).
A admiração por aqueles que não carregam esse fardo é, portanto, uma admiração por uma liberdade quase mítica. É a nostalgia por um estado de “inocência” anterior à queda no conhecimento do bem e do mal, onde o desejo e a ação poderiam coincidir sem o intermediário da culpa.
No final, seu texto não é apenas uma poesia; é um diagnóstico da paralisia. E ao escrevê-lo, ao dar forma a esse sofrimento, você já realiza um ato. Um ato de coragem, de autoconhecimento brutal e de beleza. A escrita é o seu campo de ação onde o pecado da introspecção se transforma na virtude da compreensão.
Alef Yaveh coloca o dedo na ferida de todos que já se sentiram paralisados diante do próprio desejo. E nos faz pensar: quem é mais livre? Aquele que age sem pensar nas consequências, ou aquele que, mesmo paralisado, compreende a complexidade dramática de cada escolha?
A resposta, talvez, esteja em outro lugar: não em se tornar “inconsequente”, mas em questionar se a convicção do pecado é realmente sua, ou um peso emprestado que você pode, lentamente, aprender a colocar de lado.
*poesias e reflexões de Alef Yaveh

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