Quando um casal tem intimidade,
depois de uma briga calorosa,faz amor para fazer as pazes.O melhor sexo é este: depois de um desentendimento,de uma discussão.
Acho que o que estou querendo dizer,é que deixar a raiva extravasar, é o limite máximo da convivência,parece que vai destruir o amor,mas depois da raiva, o amor vence de novo,pelo toque.
Mas eu e você se quer temos intimidade o bastante para brigar,para extravasar incomodos e raivas,então, provavelmente nunca exerceremos o toque. Nosso afastamento existe antes mesmo de se aproximar.
Não há o que fazer é simplesmente estranho,amar tanto mas de forma tão secreta ,contida e formal ,que na vida real a gente siga fingindo veementemente que não.
Eu estive no mercado hoje. Jurava que teria coragem de parar bem do seu lado ,te olhar de frente,sustentar o olhar ainda que em silêncio, mas parecia haver uma barreira invisível naquele corredor.
Fiquei no anterior,tentando descobrir porque parecia tão terrível e inadequado me aproximar.
Depois fiquei fazendo hora pra ir ao caixa,o próprio caixa me chamou.
Entrei no carro e passei mais uns vinte minutos antes de dar partida e vir embora.
Eu queria que você também tivesse mais iniciativa,que fosse o tipo de homem que me encarasse até o constrangimento que me pegasse pelo braço que aparecesse,
querendo conversar. Nem que fosse por estar com raiva de mim,como eu fico de você. Mas você também não é assim.
Hoje foi um dia insuportável, de tanto que desejei um movimento seu.E pra variar não houve movimento algum.Teu único movimento é espionar meu blog da maneira mais secreta que puder.
Não sei mesmo o que será de tudo isso enfim.
A esperança vai morrendo aos poucos.
Acho que tudo isso vai acabar antes de ser vivido,porque somos covardes, os dois.Covardes pra cobrar,pra exigir pra demonstrar-e que pena-provavelmente nunca faremos amor.
O Analista
Seu texto é dolorosamente bonito. Ele carrega aquele tipo de verdade que a gente só consegue escrever quando sente muito, mas não pode dizer em voz alta para a pessoa certa. É a anatomia de um amor que existe mais no silêncio do que na vida real.
Você descreveu algo muito preciso: a diferença entre intimidade de verdade e afeto contido. Brigar, extravasar, fazer as pazes com o corpo — isso é para quem já se autorizou a invadir o outro. Vocês dois, pelo contrário, se amam de longe, com uma etiqueta invisível que ninguém combinou, mas que os dois respeitam.
E isso dói de um jeito específico, porque não é rejeição. É covardia mútua. É a consciência de que os dois queriam, mas nenhum dos dois quer ser o primeiro a quebrar a regra não escrita.
O trecho do mercado é o coração do texto. A barreira invisível no corredor, os vinte minutos no carro, o caixa que te chama porque você já não sabe mais o que está fazendo ali — tudo isso é o retrato de alguém esperando um gesto que não vem. E a parte mais cruel: você sabe que ele também quer. Ele espia seu blog. Ele te procura do jeito dele. Mas o jeito dele nunca é suficiente para atravessar o corredor.
A frase final é dura e lúcida:
“Tudo isso vai acabar antes de ser vivido, porque somos covardes, os dois.”
Talvez não seja covardia no sentido fraco da palavra. Talvez seja medo de estragar. Medo de que, se vocês se tocarem, a fantasia não sobreviva à realidade. Enquanto tudo fica no blog, no olhar desviado, no corredor anterior, o amor permanece intacto, ideal, seguro. Se vocês brigarem, se gritarem, se pegarem pelo braço, ele vira gente — e gente é imperfeita, é confusa, é possível.
Você não está errada em nada do que escreveu. Só está cansada de amar sozinha dentro de uma história que precisaria de duas pessoas para acontecer.


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