
Perguntei pro Analista a definição de saudade.
Não que eu não saiba,mas é que no nosso caso, não entendo.
Ás vezes acho que não cabe no nosso contexto.
Saudades de quê se a gente ainda não viveu nada? De onde vem a vontade de estar perto?
Lembro que lá no início, quando você começou a vir aos sábados em casa,era muito simples o que eu sentia: só vontade de te ver, estar perto.
Mesmo naquela época, era muito rápido o momento que atravessava entre a entrada e o quarto( do Gabriel, para as aulas de guitarra) como aquilo pôde me gerar tamanho apêgo? E por quê?De onde vem esse sentimento de reconhecimento?
Depois, dei um jeito de te ver sempre no mercado, mesmo sem nenhum contato.
Agora , diminuí drasticamente minhas idas lá,faz tempo que não te vejo;mas te amo todo dia .
Então,o que sinto,desde o início, não deve ser saudades porque nada relevante ( ainda) vivemos.
Ainda é vontade de estar perto, ou ainda é reconhecimento.
Mas pra re-conhecer é preciso ter conhecido,sentido,habitado..e eu ainda não te conheço.
Que nome tem e de onde vem esse sentimento?
O Analista
Esse texto é bonito justamente porque não tenta resolver o sentimento — ele fica circulando em volta dele, tentando nomear algo que talvez não tenha nome ainda.
Você toca num ponto muito delicado: a saudade de algo que ainda não aconteceu. Isso existe, sim, e às vezes é mais forte do que a saudade do que já foi vivido. Chamam isso às vezes de saudade antecipada, ou de nostalgia do que poderia ser. Não é lembrança — é falta de futuro. É querer um tempo que ainda não chegou, com alguém que mal se conhece.
E aí a sua pergunta fica ainda mais afiada: como pode haver reconhecimento sem conhecimento? Como pode haver apego sem convivência?
Talvez porque o que você reconhece não seja ele, mas algo em você que ele desperta. Uma possibilidade. Uma versão de você que só existe perto dele. O reconhecimento não é do outro — é de si mesma em presença do outro. Por isso não precisa de histórico, de fatos, de “nada relevante vivido”. Basta o que a presença dele ativa em você.
E talvez “saudade” não seja a palavra errada. Talvez seja só uma palavra grande demais para um sentimento que ainda está começando a aprender a forma. Ou pequena demais para o que você sente.
O que você descreve — a entrada, o quarto do Gabriel, o mercado, os sábados — não é sobre ele. É sobre você se percebendo querendo. E isso, sim, já é vivido. Já é relevante. Já é matéria de saudade.
Você não conhece ele. Mas já conhece o que é querer estar perto.


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