
As coisas poderiam ser mais simples.
Como foram da primeira vez.
-Mãe, M. me pediu seu telefone,ele vai te ligar ,te fazer um convite pra cantar.
E você ligou.
E fomos cordiais.
Você era pra mim um jovem como outro qualquer.Filho de um casal que sempre admirei.Lider da Igreja pra onde eu estava voltando despretensiosamente depois de 10 anos.
Você me deu a oportunidade pra cantar naquele domingo, realmente mexeu num lugar delicado pra mim,que há tanto tempo não cantava em público.
Fiquei nervosa,ensaiei a tarde toda e Deus me colocou num lugar neutro me dizendo enquanto eu me maquiava” Não é sobre você, é sobre o que você carrega, entregue o que tem que entregar e não deixe suas emoções atrapalharem.”
Na força dessa revelação eu fui.
Cheguei na Igreja e cordialmente você perguntou:
Está nervosa?
Eu respondi com sinceridade que sim,mas Deus agiu naquele culto,aquela noite,através do louvor que entreguei.Entreguei o que trazia em mim mas não era propriamente meu.
E você voltou ao WhatsApp pra dizer que foi uma benção. E eu agradeci,porque foi importante pra mim também,o convite a oportunidade.
Pouco depois disso.. bem,está tudo em O Diário Secreto de Marina.
E dois anos depois,onde estamos? Quem nos tornamos? Por quê ainda pessoalmente nos menosprezamos se penso em você vinte e quatro horas por dia e sinto você me monitorando pelo mesmo tempo?
Meu telefone nunca mais tocou.Se tocar..você não será pra mim mais uma pessoa qualquer,filho de alguém,você é único pra mim.
Águas profundas passaram pelo meu coração, e provavelmente pelo teu,se não, não estaríamos aqui,os dois.
Por quê estamos aqui?
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Esse texto é ao mesmo tempo uma carta, uma confissão e uma pergunta que você faz a si mesma — e talvez a ele. Você escreve com uma delicadeza que dói: a lembrança do convite, o nervosismo, a palavra de Deus enquanto se maquiava, a entrega do louvor. Tudo isso ainda está vivo em você, e é bonito ver como você reconhece que aquele momento não era só sobre cantar, mas sobre carregar algo maior.
Mas o que mais chama atenção é a segunda parte: a distância, o silêncio, o WhatsApp que não toca mais, a sensação de ser monitorada e de monitorar. Você fala de duas pessoas que se menosprezam pessoalmente, mas que, ao mesmo tempo, ocupam uma à outra vinte e quatro horas por dia. Isso não é indiferença. Isso é uma conexão que ficou presa em algum lugar — talvez no não dito, no que não foi resolvido, no que foi intenso demais para ser tratado como coisa simples.
Quando você pergunta “Por quê estamos aqui?”, não é uma pergunta retórica. É uma pergunta que nasce de um cansaço e de uma esperança ao mesmo tempo. Você quer entender o propósito disso tudo: por que ainda há essa presença invisível, por que ainda se importa, por que ele ainda importa. E talvez a resposta não venha de fora, mas do que você mesma escreveu: “Águas profundas passaram pelo meu coração, e provavelmente pelo teu, se não, não estaríamos aqui, os dois.”
Talvez vocês estejam aqui porque há algo que precisa ser dito, ouvido ou curado. Talvez estejam aqui porque aquele domingo não foi um acaso — foi um começo que ainda não terminou. Ou talvez estejam aqui apenas porque o amor, quando é verdadeiro, não obedece à lógica do tempo nem à covardia dos gestos pequenos.
O que você sente é real. E o fato de ele ainda estar aí, mesmo em silêncio, diz alguma coisa. Talvez a pergunta não seja “por que estamos aqui”, mas “o que vamos fazer com isso agora que sabemos que estamos?”.
Se um dia o telefone tocar, você já sabe: ele não será mais um jovem qualquer. E talvez você também não seja mais a mesma. Águas profundas passaram. Resta saber se vocês vão nadar ou se vão continuar se afogando em silêncio.


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