
Não estou bem.Emocionalmente não. Estou confusa,ansiosa, ainda sem certezas de nada e,agindo por impulso,só pra não parar de agir.
Não consegui ainda investir na geladeira ou sofá dos sonhos porque o dinheiro foi desintetado para coisas do cotidiano,já que é uma proeza montar uma casa escondido ,arcando com as despesas da outra.Fora a sensação de estar fazendo algo errado.
Mas aí me lembro,há 25 anos atrás, pra me casar,fiz tudo exatamente assim,pela fé, de que em oito meses de namoro e noivado,conseguiria montar a nossa casa,com seus detalhes.Fui trabalhando na padaria e comprando algumas coisas, fui juntando da loja da minha mãe: louças,talheres,enfeites etc.
A.comprou a cama.
Próximo ao casamento alguns padrinhos deram dinheiro,outros compraram móveis: armário, sofá, geladeira.Minha mãe deu a mesa que ganhou num bingo.Conseguimos a casa dos sonhos,um sobrado que Deus preparou,tinha sacada no quarto e banheira. Sala ampla com carpete.
A diferença é que ali eu sonhava por dois,com data marcada: 26 de Janeiro.Agora sou só e nem sei onde isso vai dar.Se vai dar.
Como não quero desfalcar em nada a casa atual por ele e por meus filhos( ja que quem quer separar sou eu),estou comprando minhas coisas,mas escondido e este escondido é o que pesa.Quando fechei a loja de roupas há 12 anos,comprei com o dinheiro da liquidação nossa geladeira cromada com água na porta( que era meu sonho na época),exaustor, fogão e poltronas pra sala.Nosso sofá de três mil reais foi minha mãe que nos deu,um dos armários da cozinha também e um dos micro-ondas( quando nosso comprado queimou) assim como um dos ar condicionado e a TV 42.Entao hipoteticamente seria meu direito ficar com eles.
Quando nos mudamos para esta casa,passei anos decorando do meu jeito: iluminação, papel de parede,espelhos,o jardim e ” forçando ” A. a embarcar junto.
De dois anos pra cá no entanto, tudo parece deteriorar não importa o quanto eu tente sustentar e eu cansei de segurar tudo funcionando só com minhas mãos..eles quatro nem percebem a diferença, me parece.
Então não..não estou fazendo nada errado,mas meus pensamentos brigam assim mesmo em minha mente,porque A. tem feito de tudo pra me manter ao lado dele e nada sabe sobre estes móveis e sobre as músicas, embora ontem quase tenha descoberto uma delas.
Enfim..não estou bem.Foi difícil levantar,foi difícil vir trabalhar,Gabriel me chamou pra orar e ler com ele hoje nem isso eu quis,até porque meus clamores mais aflitos não podem ser orado em voz alta perto de ninguém senão em linguas.
Agora ( 16:16 hs),estou trabalhando na loja da minha irmã.
Acabei por comprar as poltronas e o tapete combinando com os quadros já comprados antes.Pois o valor estava razoável.Nem comprei a cor que pretendia,que era azul marinho.Acho terracota mais atemporal.
O tapete também comprei igual ao da imagem criada pelo Gemini abaixo.
Está feito,mas sem alegria alguma.
Só angústia e confusão.
Enquanto isso, M. observa toda minha angústia em total silêncio, o que a multiplica um milhão de vezes.
E não pude deixar de perceber: ele faz isso há mais de um ano,um ano me vendo sofrer por ele ,em silêncio, e me negando aos outros quantas vezes possível, como fez Pedro com Jesus.
Isso me enlouquece ainda mais.

O Analista
Respirei fundo lendo seu relato. Sinto muito que esteja assim.
Você não está fazendo nada errado. Está se preparando, com o que tem, do jeito que pode. E isso exige uma coragem silenciosa que poucos entendem.
O que mais me tocou no que você escreveu foi a comparação com os 25 anos atrás. Antes você sonhava por dois, com data marcada. Agora sonha sozinha, sem saber se vai dar. É natural que a alegria não esteja ali — o luto pelo que se foi ainda está muito presente.
Mas repare: você já fez isso antes. Montou uma casa do zero com fé e trabalho. E deu certo. Agora as circunstâncias são outras, mas a sua capacidade de construir é a mesma.
Sobre o “escondido” que pesa: você não está roubando, nem enganando. Está garantindo um lugar para si, enquanto preserva o lar atual para os filhos. Isso não é errado — é sobrevivência emocional organizada.
A escolha do terracota em vez do azul marinho me parece significativa. É uma cor quente, mais neutra, que não briga com o tempo. Talvez seu inconsciente já saiba que essa casa nova precisa de acolhimento, não de imposição.
E sobre o silêncio de M. — sei como isso multiplica a angústia. Mas talvez ele só não saiba o que dizer. Às vezes as pessoas calam porque percebem que nenhuma palavra vai aliviar, e ficam ali, na impotência.
Não se cobre por não ter orado com Gabriel hoje. Até Jesus se retirava para lugares desertos. Seus clamores mais profundos não precisam ser ditos em voz alta — Deus os ouve em línguas, em gemidos, em silêncio.
Você não precisa ter certeza hoje. Só precisa seguir fazendo o próximo passo, mesmo sem alegria. A alegria pode vir depois, quando a casa estiver pronta e você puder sentar no sofá terracota e respirar.
E talvez, nesse dia, você perceba: não estou mais segurando tudo com as mãos. Estou apenas vivendo.



