Códigos Das Minhas Emoções

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Primeira Quarta de Setembro

8

Não estou bem.Emocionalmente não. Estou confusa,ansiosa, ainda sem certezas de nada e,agindo por impulso,só pra não  parar de agir.

Não  consegui ainda investir na geladeira ou sofá  dos sonhos porque o dinheiro foi desintetado para coisas do cotidiano,já que é uma proeza montar uma casa escondido ,arcando com as despesas da outra.Fora a sensação  de estar fazendo algo errado.

Mas aí  me lembro,há  25 anos atrás, pra me casar,fiz tudo exatamente  assim,pela fé, de que em oito meses de namoro e noivado,conseguiria montar a nossa casa,com seus detalhes.Fui trabalhando na padaria e comprando algumas coisas, fui juntando da loja da minha mãe: louças,talheres,enfeites etc.

A.comprou a cama.

Próximo  ao casamento  alguns padrinhos deram dinheiro,outros compraram móveis: armário, sofá, geladeira.Minha mãe  deu a mesa que ganhou num bingo.Conseguimos a casa dos sonhos,um sobrado  que Deus preparou,tinha sacada no quarto e banheira. Sala ampla com carpete.

A diferença  é  que ali eu sonhava por dois,com data marcada: 26 de Janeiro.Agora sou só e nem sei onde isso vai dar.Se vai dar.

Como não  quero desfalcar em nada a casa atual por ele e por meus filhos( ja que quem quer separar sou eu),estou comprando minhas coisas,mas escondido e este escondido é  o que pesa.Quando fechei a loja de roupas  há  12 anos,comprei com o dinheiro  da liquidação  nossa geladeira cromada com água na porta( que era meu sonho na época),exaustor, fogão  e poltronas pra sala.Nosso sofá de três  mil reais foi minha mãe  que nos deu,um dos armários da cozinha também  e um dos micro-ondas( quando nosso comprado queimou) assim como um dos ar condicionado e a TV 42.Entao hipoteticamente  seria meu direito ficar com eles.

Quando nos mudamos para esta casa,passei anos decorando do meu jeito: iluminação, papel de parede,espelhos,o jardim e ” forçando  ” A. a embarcar junto.

De dois anos pra cá no entanto, tudo parece deteriorar não  importa o quanto eu tente sustentar e eu cansei de segurar tudo funcionando só com minhas mãos..eles quatro nem percebem a diferença, me parece.

Então  não..não  estou fazendo nada errado,mas meus pensamentos  brigam assim mesmo em minha mente,porque A. tem feito de tudo pra me manter ao lado dele e nada sabe sobre estes móveis  e sobre as músicas, embora ontem quase tenha descoberto  uma delas.

Enfim..não  estou bem.Foi difícil  levantar,foi difícil vir trabalhar,Gabriel  me chamou pra orar e ler com ele hoje nem isso eu quis,até porque meus clamores mais aflitos não podem ser orado em voz alta perto  de ninguém senão em linguas.

Agora ( 16:16 hs),estou  trabalhando na loja da minha irmã.

Acabei por comprar as poltronas e o tapete combinando com os quadros já  comprados antes.Pois o valor estava razoável.Nem comprei a cor que pretendia,que era azul marinho.Acho terracota mais atemporal.

O tapete  também  comprei igual ao da imagem criada pelo Gemini abaixo.

Está  feito,mas sem alegria alguma.

Só  angústia e confusão.

Enquanto isso, M. observa toda minha angústia em total silêncio, o que a multiplica um milhão  de vezes.

E não  pude deixar de perceber: ele faz isso há  mais de um ano,um ano me vendo  sofrer por  ele ,em silêncio, e me negando aos outros quantas vezes possível, como fez Pedro com Jesus.

Isso me enlouquece ainda mais.

O Analista

Respirei fundo lendo seu relato. Sinto muito que esteja assim.

Você não está fazendo nada errado. Está se preparando, com o que tem, do jeito que pode. E isso exige uma coragem silenciosa que poucos entendem.

O que mais me tocou no que você escreveu foi a comparação com os 25 anos atrás. Antes você sonhava por dois, com data marcada. Agora sonha sozinha, sem saber se vai dar. É natural que a alegria não esteja ali — o luto pelo que se foi ainda está muito presente.

Mas repare: você já fez isso antes. Montou uma casa do zero com fé e trabalho. E deu certo. Agora as circunstâncias são outras, mas a sua capacidade de construir é a mesma.

Sobre o “escondido” que pesa: você não está roubando, nem enganando. Está garantindo um lugar para si, enquanto preserva o lar atual para os filhos. Isso não é errado — é sobrevivência emocional organizada.

A escolha do terracota em vez do azul marinho me parece significativa. É uma cor quente, mais neutra, que não briga com o tempo. Talvez seu inconsciente já saiba que essa casa nova precisa de acolhimento, não de imposição.

E sobre o silêncio de M. — sei como isso multiplica a angústia. Mas talvez ele só não saiba o que dizer. Às vezes as pessoas calam porque percebem que nenhuma palavra vai aliviar, e ficam ali, na impotência.

Não se cobre por não ter orado com Gabriel hoje. Até Jesus se retirava para lugares desertos. Seus clamores mais profundos não precisam ser ditos em voz alta — Deus os ouve em línguas, em gemidos, em silêncio.

Você não precisa ter certeza hoje. Só precisa seguir fazendo o próximo passo, mesmo sem alegria. A alegria pode vir depois, quando a casa estiver pronta e você puder sentar no sofá terracota e respirar.

E talvez, nesse dia, você perceba: não estou mais segurando tudo com as mãos. Estou apenas vivendo.

The Second Whind
O Segundo Vento