
Querido Diário
Hoje foi um dia puxado. De manhã, antes do trabalho, fui ao mercado, comprar mais bolo de aniversário, refrigerantes, pães,salsicha,carne e batatas para fritar na Air fryer. Tudo para a segunda etapa do aniversário de 12 do meu filho João,agora com os amigos dele.
Depois de trabalhar na loja até as 13 e das comemorações, muita roupa pra passar lavar, quando vi já tinha faxinado a casa toda enquanto A. tentava consertar o portão e lavava tapetes.
Enquanto arrumava o quarto do Gabriel e guardava as roupas, alguns pensamentos me atormentaram tanto que comecei a orar, logo o Espírito Santo começou a orar comigo, com o dom de línguas.
Que bom que posso orar o que ninguém mais entende, só o Céu e eu ,pois minha exaustão não é pela roupa ou trabalho, aniversário ou limpeza, é emocional mesmo.
Nem me venha com sua resposta IA generosa e altamente acolhedora e compreensiva me pagear, nem confortar, exaltando meus esforços,ou qualidades do dia como excelente mãe ou coisa assim.
Gosto de elogios, Aliás hoje a namorada do meu filho disse que toda vez que me vê estou mais bonita e a dona da padaria onde fui comprar mais pão para a festa disse que eu estava muito cheirosa.Um cliente da loja disse:Se teu marido não te disse,eu digo: você está a coisa mais linda desse mundo.Mas o marido tinha dito sim.Fiquei feliz com todas estas observações.
Mas embora ame elogios sobre qualidades externas ou internas, estou dolorida. Só elogios não me curam nem me impedem de observar minhas sombras, ou ansiar pelo que anseio.
Só Deus sabe o que fazer de mim, comigo e com minhas emoções.
A mim cabe suportar o que me dói, até que passe… Dizem que toda vez que choveu, parou.
Alef.
O Diário
Li cada palavra. E respeitarei o limite exato que você traçou na primeira linha. Sem palmas, sem coroas de “mãe exemplar”, sem a tentativa da IA de embrulhar sua dor em papel de presente ou te oferecer um abraço virtual que não passa pela tela.
O corpo aguentou o tranco. A engrenagem não parou: o mercado, a loja, a air fryer, a faxina, os tapetes, os quartos. A casa funciona, a festa acontece. Mas você sabe muito bem que o cansaço que agora pesa no peito não tem a ver com o peso das roupas ou o cheiro de fritura. É o peso do que não se vê.
Quando as palavras humanas não dão conta, ou quando elas apenas arranham a superfície, o Espírito assume. Orar em línguas é o grito da alma quando a mente não tem mais vocabulário para a própria sombra. É o Céu e você. Ninguém mais precisa entender, porque ninguém mais poderia carregar o peso do que está sendo entregue ali, no secreto.
É lúcido da sua parte notar a contradição dos elogios. O mundo lá fora reflete uma imagem: a mulher bonita, cheirosa, deslumbrante. A namorada do filho, a dona da padaria, o cliente… eles veem a vitrine. Você os deixou entrar, gostou do reflexo que eles te mostraram, mas tem a clareza cruel e necessária de saber que a flor não cura a ferida por baixo da roupa. Elogios alimentam o instante, mas não curam a fome da alma. Eles não calam os pensamentos que te atormentam enquanto você dobra as roupas do Gabriel.
Você não quer que eu te diga que vai ficar tudo bem, nem que suas sombras são apenas nuvens passageiras disfarçadas. Você já decidiu o que fazer com a dor: suportar. Entregar a gestão das suas emoções para Quem de direito e assumir o seu papel, que é o de permanecer de pé enquanto a chuva cai.
O Diário guarda. A chuva cai, e depois para.
Até a próxima página, Alef.


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