Códigos Das Minhas Emoções

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Faces Da Mesma Face



Existem dois versículos bíblicos dos quais me lembrei agora.

Um diz:

“Mas eu lhes digo: não resistam ao perverso. Se alguém lhe bater na face direita, ofereça-lhe também a outra.”

(Mateus 5:39)

O outro diz:

“Eis que fiz o teu rosto forte contra os rostos deles, e a tua testa forte contra a testa deles. Fiz a tua testa como diamante, mais forte do que a pederneira; não os temas, nem te assustes com o seu semblante.”

(Ezequiel 3:8-9)

Um nos ordena ceder diante da afronta; o outro, endurecer e sustentar posição.

Passei a vida dando a outra face em nome da fé.

O primeiro emprego que tive, aos quinze anos, foi através de uma irmã da igreja. E a primeira recomendação dela foi que eu fosse muito humilde, pois estava sendo contratada por ser “crente”.

Ali sofri horrores durante dois anos: perseguições, piadinhas, apelidos… e eu sorria, fingindo que não me importava.

O mesmo aconteceu na família. Humildade e bom testemunho acima de tudo. Fui a filha mais doce e serviçal até os trinta e três anos — mesmo já casada. Era deixada por último, ignorada. Arrastei o restante da minha família para o mesmo tratamento em troca de favores financeiros.

Depois, porém, retirei a mim mesma e a cada um deles daquela posição.

Um dia escrevi um conjunto de posts, aqui mesmo no blog, que abriram meus olhos. Parei de dar a outra face para muita gente. Comecei a afiar o rosto e a bancar meu incômodo.

Foi aos poucos.

Foi difícil.

Foi com pastores, familiares, marido, filhos, irmãos.

Com todo mundo que me passou a perna ou tentou me manipular, coagir ou controlar de alguma forma.

Hoje, nem que eu queira, consigo engolir uma afronta, um incômodo ou uma falsidade.

Parece que minhas antenas para as intenções das pessoas ficaram mais afiadas com o tempo.

Embora eu não me permita acusar ninguém sem provas, quando as tenho, coloco-as sobre a mesa.

Qual versículo bíblico traz menor prejuízo?

Ambos têm um custo.

Anular a própria opinião, suportar humilhações e abrir mão do senso de defesa pode nos render vários rótulos: boazinha, bonzinho, humilde, trouxa, otário.

Mas também pode atrair mais rapidamente a justiça de Deus, dependendo da gravidade do problema e da atitude dos nossos oponentes.

A Bíblia diz:
“Deixem a ira e abandonem o furor; não se irritem: isso só leva ao mal.”

(Salmo 37:8)

E também:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus; porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.”

(Romanos 12:19)

Meu pior oponente, descrito no livro Sobre Tudo o Que Se Deve Guardar, por exemplo, me caluniava, me xingava, me afastou da minha mãe, me bateu e me expulsou de casa.

Mas nem está mais vivo para contar a história.

Destruiu-se sozinho, como Judas.

Por outro lado, afiar o rosto, sustentar a decisão de dizer:

“Sim, você me ofendeu e eu estou na minha razão”,

também tem um custo.

Jeremias, por exemplo, foi perseguido, preso e lançado numa cisterna por sustentar a verdade.

Nós perdemos mesas, dinheiro, acessos e oportunidades.

Ou, se tudo der certo, passamos para outro nível:

“É melhor respeitar fulana.”

“O limite dela é este.”

Tudo depende do quanto as pessoas pensam em vantagens e desvantagens ao nosso respeito; do quanto nos amam ou apenas nos toleram.

Tudo dói.

Tudo é bíblico.

É o mesmo Jesus dizendo:

«”Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.”

(Mateus 5:5)

E também o mesmo Jesus indignado, virando as mesas dos cambistas no templo.

É Ele ensinando:
“Sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas.”

(Mateus 10:16)

É João Batista perdendo a cabeça por dizer ao rei que não lhe era lícito possuir a mulher de seu irmão.

Tudo dói.

Tudo custa.

E sempre levantarão sobre nós amor e ódio, admiradores e acusadores.

A questão talvez não seja qual caminho custa menos.

Talvez seja:

Com quanto de tudo isso nossa cabeça, nossas emoções, nossa fé, nossa consciência e nossa indignação conseguem lidar sem perder aquilo que Deus está tentando formar em nós?

O Analista

Sua reflexão é profunda, dolorosa e extremamente lúcida. Você tocou em um dos pontos mais complexos e, muitas vezes, mal compreendidos da teologia prática e da psicologia humana: o uso seletivo de versículos bíblicos para manter estruturas de poder, abuso e submissão, em detrimento da verdadeira justiça e dignidade.

Para responder à sua pergunta central — “Qual versículo bíblico traz menor prejuízo?” — precisamos primeiro desconstruir a falsa dicotomia que nos foi imposta, e depois olhar para o custo real de cada caminho.

1. O Prejuízo não está no Versículo, mas na sua Distorção

O maior prejuízo não vem de escolher um versículo ou outro, mas de aplicá-los fora de seu contexto original e propósito.

  • “Oferecer a outra face” (Mateus 5:39): No contexto cultural do primeiro século, um tapa na face direita era dado com as costas da mão. Era um gesto de um superior para humilhar um inferior (um escravo, uma mulher, um judeu sob domínio romano). Ao oferecer a face esquerda, a pessoa não estava se submetendo passivamente; ela estava forçando o agressor a bater com a palma da mão (tratando-a como um igual) ou a parar. Era um ato de resistência não-violenta e dignidade, não um convite ao abuso contínuo. Quando a religião usa isso para dizer “fique quieto enquanto te machucam”, ela perverteu o texto.
  • “Endurecer o teu rosto” (Ezequiel 3:8-9): Deus diz isso ao profeta que enfrentaria um povo rebelde. Não é um convite à teimosia, ao rancor ou à vingança pessoal. É uma promessa de resiliência e coragem profética. É a garantia de que, ao fazer o que é certo, você não será paralisado pelo medo da rejeição ou da intimidação.

Portanto, nenhum dos dois traz prejuízo quando aplicados com sabedoria. O prejuízo massivo que você sofreu veio da aplicação tóxica do primeiro: a “humildade” foi usada como uma ferramenta de controle para que você aceitasse o inaceitável em troca de um “bom testemunho”.

2. O Custo Real de Cada Caminho

Você fez uma análise de custo-benefício cirúrgica, e ela está biblicamente e psicologicamente correta.

O custo de “dar a outra face” (na versão distorcida da submissão):

  • Prejuízo interno: Anulação da identidade, depressão, ressentimento acumulado e perda do senso de realidade (gaslighting).
  • Prejuízo externo: Você se torna um alvo fácil para predadores emocionais e financeiros, como você mesma experienciou.
  • A “vingança de Deus”: É verdade que Romanos 12:19 diz que a vingança pertence a Deus. E, como você viu, opressores muitas vezes colhem o que plantam. Mas viver como um tapete esperando que Deus pise em quem te pisou não é fé, é masoquismo espiritual. Deus não nos chamou para sermos mártires do abuso alheio.

O custo de “afiar o rosto” (impor limites e buscar justiça):

  • Prejuízo externo: Perda de relacionamentos, exclusão de grupos (família, igreja), prejuízos financeiros e a rotulação de “difícil”, “orgulhosa” ou “rebelde”. Como você citou, Jeremias foi ao poço e João Batista perdeu a cabeça.
  • O Benefício (o “próximo nível”): Integridade, paz de espírito, auto-respeito e o estabelecimento de um padrão onde as pessoas são forçadas a te tratar com o respeito mínimo, ou a se afastarem.

3. A Síntese: Pombas e Serpentes

Você mesma respondeu à sua dúvida quando citou: “Sede simples como as pombas e astutos como as serpentes” (Mateus 10:16), e quando lembrou de Jesus virando as mesas dos cambistas.

Jesus era manso, mas não era inofensivo. Ele era cheio de graça, mas também de verdade. A mansidão bíblica (prautēs no grego) não é fraqueza; é força sob controle. É o cavalo de guerra que obedece ao seu cavaleiro, não um animal selvagem, mas também não um animal morto.

Ao parar de “dar a outra face” para quem te manipulava, você não deixou de ser cristã; você amadureceu. Você trocou a submissão tóxica pela mansidão com limites. Você aprendeu que amar o próximo também significa não permitir que o próximo continue pecando contra você sem consequências, pois isso só corrompe a alma dele (e a sua).

4. Com quanto disso conseguimos lidar?

Sua pergunta final é a mais importante: “Com quanto disto nossa cabeça, emoções, fé e indignação conseguem lidar?”

A resposta é: conseguimos lidar com muito mais do que imaginamos, desde que paremos de carregar a culpa pela reação dos outros à nossa integridade.

O segredo para não enlouquecer ou amargurar nesse processo é entender uma verdade libertadora: Você é responsável apenas pela sua ação (ser justa, firme e verdadeira); a reação do outro (se vão te admirar, te odiar, te caluniar ou te abandonar) é responsabilidade deles e de Deus.

Quando você impõe um limite, o sistema (família, igreja, trabalho) vai tentar te punir para que você volte ao seu lugar de “serviçal e doce”. A dor que você sente ao ser mal compreendida é o “luto” da imagem falsa que eles tinham de você. Deixe que essa imagem morra.

O seu caminho agora é o do equilíbrio. Continue com suas “antenas afiadas”. Use a astúcia da serpente para se proteger de armadilhas financeiras e emocionais, e a simplicidade da pomba para manter seu coração limpo, sem desejar o mal a ninguém, apenas exigindo o respeito que é seu por direito humano e divino.

Você pagou um preço alto por 18 anos de submissão. O preço que você paga agora, pela sua firmeza, é muito menor, porque ele compra a sua liberdade. E isso, biblicamente e humanamente, vale cada centavo.

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