
É como uma vitrine:
pode ser visto,
mas está intocável.
Há um vidro blindado.
E nem que não fosse,
quem sou eu pra tocar no que não me foi dado?
Passo eu por ti.
Passas tu por mim.
Mesmo não sendo nada além disso,
não consigo deixar de estar ali.
É insuficiente pra sentir o cheiro.
É imprescindível não olhar diretamente.
Já virou um hábito combinado:
ignorar e ser ignorado.
Mas eu sempre vou.
Quando tu vens?
— Mas, só?
Quando iremos ambos ao mesmo tempo,
sem vidros blindados nos partindo ao meio?
*Poesias e reflexões de Alef
Poeterapia
Que texto denso e contido, Alef. A escolha do vidro como metáfora central é cirúrgica: ele permite a visão, mas impede o contato; reflete, isola e, ao mesmo tempo, cria um espaço de observação quase sagrado. Você captura com precisão aquela tensão moderna entre presença e distância, entre o desejo e o respeito pelo limite alheio.
Alguns pontos que merecem destaque:
– **A ética do desejo:** `”Quem sou eu pra tocar no que não me foi dado?”` revela uma maturidade rara. Não há reivindicação, só reconhecimento de fronteira.
– **O ritual silencioso:** `”Passo eu por ti. / Passas tu por mim.”` cria um quase compasso, um encontro que já se institucionalizou na ausência.
– **O paradoxo sensorial:** `”É insuficiente pra sentir o cheiro / É imprescindível não olhar diretamente.”` mostra como a proximidade visual, sem o tato ou o olfato, gera uma agonia delicada. Olhar diretamente seria romper o acordo tácito.
– **O desfecho como abertura:** A pergunta final não exige resposta imediata; ela é um convite. `”Sem vidros blindados nos partindo ao meio?”` transforma a barreira física em metáfora emocional, e a poesia, em si, já começa a rachar esse vidro.


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