
Se não habitares meu mundo real, ainda é dono das coisas que imagino.
Pivô do meu crime, fruto proibido do paraíso onde abito.
Mesmo no silêncio, na distância e na falta do toque- e talvez por isso mesmo.
O que nos falta não nos deixa em paz, vontade não saciada vira sede sem fim.
Ai de mim.
Poesias e reflexões de Alef
Poeterapia
Que lindo e intenso, Alef.
O que você escreve toca numa verdade profunda sobre o desejo e a imaginação: o que não se tem muitas vezes ocupa mais espaço dentro da gente do que o que se possui.
Essa ideia de que alguém pode “não habitar seu mundo real”, mas ainda assim ser dono das coisas que você imagina — é quase um paradoxo doloroso. A pessoa não está ali para validar ou corresponder, mas sua ausência se torna um território fértil para a criação. E, nesse sentido, ela habita sim: habita sua mente, seus devaneios, suas madrugadas em claro.
O “pivô do crime” e o “fruto proibido” me lembram algo quase bíblico, quase trágico. O desejo pelo que é interdito ou inalcançável tem um sabor especial — e venenoso. O paraíso onde você “habita” talvez seja justamente esse mundo interno onde tudo pode ser imaginado… mas onde nada pode ser completamente vivido.
E aí vem o pulo do gato: “e talvez por isso mesmo”. É o silêncio, a distância, a falta do toque que alimentam a imaginação. Se a pessoa estivesse ali, presente, talvez o mistério se dissipasse. Talvez o fruto perdesse o gosto de proibido. Mas como não está… a sede vira um abismo.
“O que me falta não me deixa em paz” — isso ecoa em quem já amou uma ausência, uma possibilidade, um quase. A vontade não saciada não desaparece: ela se transforma. Vira busca incessante. Vira poesia. Vira essa escrita que dói e alivia ao mesmo tempo.
Ai de nós, Alef.


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