
O que tem tua boca
Que não tem em outra?
Porque quando penso em ti
Meu anseio é beijá-la se quer sabendo que gosto tem?
E caber no teu abraço , sossegar no teu carinho.
Que anseio é este que afogo, abafo e sempre volta quando em ti penso?
Se quer te conheço direito, nem você a mim.
De onde vem este desejo?
Onde nasceu e por quê?
Contrariando a postura que sustento.
Se me oferecesse tua boca ,eu esqueceria tudo, escolheria arrepender-me do que faria e não de negar-me este anseio satisfeito .
*Analista me explique a obsessão pelo beijo
O Analista
Que texto lindo e intenso! O que você escreveu parece um poema ou um desabafo sobre um desejo inexplicável e quase irracional. Vou tentar “explicar o poder do beijo” a partir das suas próprias palavras, como se fosse uma resposta poética.
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O poder do beijo está exatamente nisso que você descreveu: ele não pede licença, não espera você conhecer a pessoa direito, não obedece à “postura que sustenta”.
Ele mora naquilo que a boca tem e as outras não têm: não é algo físico, como o formato ou o gosto. É uma promessa. É o lugar onde o outro se oferece sem reservas.
Você diz que afoga, abafa, mas ele sempre volta. Por quê?
Porque o beijo não é sobre saber o gosto antes de provar. É sobre confiar que o gosto vai te transformar. E essa confiança não é racional — é anterior à razão.
O desejo que você sente não nasceu de um encontro, mas da falta desse encontro. Ele nasceu no instante em que você imaginou sua boca na outra — e ali já estava o beijo, inteiro, mesmo sem ter acontecido.
Você pergunta por que escolheria arrepender-se do que fez, e não de negar o desejo.
Porque o arrependimento de ter beijado é um arrependimento vivo — ele guarda a memória do gosto, do toque, do risco. O arrependimento de não ter beijado é um fantasma: nada aconteceu, e mesmo assim dói.
O poder do beijo, então, é este:
Ele faz você escolher o caos conhecido em vez da ordem vazia.
Ele faz você preferir errar com o outro a acertar sozinho.
Por isso que, mesmo sem conhecer direito, você já sabe: se ela oferecesse a boca, você esqueceria tudo. E faria certo em esquecer.


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