
Como será por dentro a bailarina?
O equilíbrio,a pose, o calejar da ponta dos pés?
E seu coração, como é?
O que se passa por sua mente durante o dançar? A musculatura do seu corpo torneado, esbelto, sendo apreciada em cada olhar.
Que preço se paga por tão suavemente bailar? A cabeça erguida, pescoço esguio.Lindo monumento.
Será que por dentro ela baixa a guarda, perde a compostura em algum momento?
Como é a bailarina?
O ser humano sem sapatilhas e saia de tules?
O que ela diz? Conta piadas? Faz fofocas ? Fala palavrões?
Gosta dos cabelos soltos ao vento? Come hamburgers? Tem dor de barriga? Coceiras? Frio? Calor?
Quem é essa bailarina afinal?
Que todos admiram ,no espetáculo da vida.
Quando a peça termina.. como ela é?
*poesias abstratas de Alef Yaveh
O Analista
Que bonito olhar a bailarina por dentro, como você faz, desfiando o mistério por trás do gesto perfeito.
A bailarina, por dentro, é uma geografia de contrastes. O equilíbrio que você vê nas pontas é um negociação constante com a gravidade: os músculos das pernas tremem em microfissões, os dedos dos pés — calejados, sim, e muitas vezes deformados, com unhas que nascem e arrancam, com bolhas que viram calos e calos que viram armadura — gritam em silêncio. A pose é um instante sustido entre a dor e a graça.
Seu coração é um relógio de corda muito sensível. Bate acelerado pela adrenalina do palco, mas aprendeu a não fazer barulho. É um coração que ama a música com tanto rigor que às vezes esquece de sentir outra coisa. Guarda solidão, sim, porque a bailarina passa horas na sala de ensaio consigo mesma, repetindo o mesmo passo até que o erro desapareça — e nessa repetição, algo de humano se apaga um pouco, ou se transforma em disciplina feroz.
Na mente dela, durante o dançar, não há poesia contínua. Há contagem. “Um, dois, três, plié, estica, respira, olha o ponto fixo, não pensa na plateia, só no próximo movimento.” Há o medo de cair, a memória muscular que trabalha mais rápido que o pensamento, e de repente um lampejo — uma alegria estranha, um êxtase que não tem nome. Por dentro, ela às vezes flutua. Outras vezes, briga consigo mesma: “Você consegue, você treinou.”
A musculatura torneada, esbelta — sim, é apreciada em cada olhar. Mas ela, cansada, sente mais o peso dos ossos do que a leveza das curvas. O preço que se paga por bailar suavemente inclui: joelhos que estalam, costas que latejam, a fome controlada (ela conhece a balança como ninguém), a menstruação que às some, o isolamento das festas para descansar o corpo, o perfeccionismo que a morde por dentro. A cabeça erguida e o pescoço esguio são um lindo monumento construído sobre noites de insônia e alongamentos que doem como prece.
Será que ela baixa a guarda? Sim. No camarim, depois do espetáculo, quando tira as sapatilhas e vê os pés machucados — ali ela às vezes chora. Ou ri nervoso. Perde a compostura quando erra um passo no ensaio geral e o coreógrafo franze a testa. Ou quando alguém que ela ama diz, sem querer: “Você não parece uma bailarina, parece uma pessoa comum.” Isso desmonta tudo.
Como é a bailarina sem sapatilhas e saia de tules? Ela anda desengonçada, esbarra em quinas, tem o andar torto porque os pés doem. Usa meias felpudas e moletom largo. Dorme de conchinha com um travesseiro entre os joelhos. Espirra alto. Às vezes coça a coça com uma unha suja de terra. Ri de piada besta. Conta fofoca do teatro: “Você não vai acreditar no que a solista fez na festa de fim de ano…” Fala palavrão quando derruba café na partitura. Come hambúrguer escondida e depois sente culpa — ou não, depende do dia.
Gosta dos cabelos soltos ao vento, sim, mas só fora do espetáculo; dentro do coque, a cabeça pesa. Tem dor de barriga antes da estreia. Coceira na meia-calça numa sexta-feira chuvosa. Frio nos bastidores, calor sob os refletores. É humana até os dentes.
Quem é essa bailarina afinal?
É uma menina que um dia olhou espelho e quis voar. Que trocou partes de si pelo aplauso. Que aprendeu que perfeição e felicidade nem sempre dançam juntas. Que todos admiram no palco sem saber que ali também há um abismo — mas que nesse abismo, algumas noites, nascem estrelas.
Quando a peça termina, ela é alguém que tira a maquiagem, penteia os nós dos cabelos soltos, come um chocolate na cama e respira fundo. Amanhã tem ensaio. E ela vai voltar a dançar — porque, por dentro, a bailarina não sabe viver inteiramente sem essa dor bonita.


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