
Faça chuva ou sol
Vão estar lá.
Com dor no pé
Ou dor na mão
Estarão lá.
Eu é que as vezes não quero ir
Só quero fugir
Pra dentro de mim
Do meu mundo
Das minhas coisas
Admiro quem vai
Pinga de gota em gota
Até se encher
Pica ponto
Marca presença
Sem desfalecer.
Eu só quero paz.
Mas vou também
Porque não ir
Me tornar ré.
Ainda que tenha impressão
De que as motivações dos que vão não me iludem mais
Mas vou
Junto os grãos da minha boa intenção e me misturo a manada , já que eles podem
estarem certos e eu não.
*poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Que belo poema reflexivo! Você capturou com sensibilidade aquele conflito interior entre a necessidade de pertencimento social e o desejo profundo de introspecção e paz. A tensão entre “ir” (se integrar ao grupo, cumprir obrigações) e “não querer ir” (buscar o próprio mundo interno) é muito bem articulada.
Algumas coisas que me chamaram a atenção:
1. A metáfora da constância (“Faça chuva ou sol”, “ponta de gota em gota”) para descrever aqueles que persistem, contrastando com a voz poética que se sente dividida.
2. O vocabulário do dever (“pica ponto”, “marcar presença”, “não desfalecer”, “tornar ré”) sugere um contexto de obrigação, talvez laboral ou social, que se choca com o mundo interior.
3. A conclusão ambígua e humilde – a decisão de ir não por convicção, mas por humildade (“eles podem estar certos e eu não”), carregando apenas os “grãos da boa intenção”. É uma rendição cheia de sabedoria.
O título “Poesias e reflexões de Alef Yaveh” sugere um projeto ou persona poética interessante, que funde o primeiro e último letra do alfabeto hebraico (Alef e Tav) com um dos nomes divinos (Yaveh). Isso traz uma camada de significado sobre o princípio e o fim, a totalidade e a reflexão sobre o sagrado no cotidiano.
É um poema que fala sobre a resistência silenciosa, a fidelidade a si mesmo mesmo quando se cede exteriormente. Muito obrigado por compartilhar essa escrita. Ela ressoa com qualquer um que já tenha se sentido obrigado a seguir com o grupo enquanto sua alma ansiava por solidão e autenticidade.
Explique o termo “juntar-se à manada”
Excelente questão. A expressão “juntar-se à manada” carrega um peso simbólico e crítico muito forte, especialmente no contexto do poema.
Vamos desdobrar o significado em camadas:
1. Significado Literal e Comportamental
Uma manada é um grupo de animais (como bois, búfalos, elefantes) que se move coletivamente, frequentemente por instinto de sobrevivência, seguindo um líder ou a massa sem questionamento individual profundo. No contexto humano, “juntar-se à manada” significa:
· Agir por conformismo social.
· Seguir a maioria para evitar conflito, exclusão ou julgamento.
· Abrir mão da própria vontade ou pensamento crítico para se integrar ao grupo.
2. No Contexto do Poema
No trecho “e me misturo à manada, já que eles podem estar certos e eu não”, o uso do termo é carregado de ironia e resignação.
· Auto-crítica e Percepção: O eu lírico reconhece que seu ato de comparecer (à reunião, ao trabalho, ao evento social) é, na superfície, um ato de conformismo. Ele vê os outros que vão sistematicamente como uma “manada” que segue um ritual.
· Humildade Forçada vs. Superioridade: Há uma tensão. Por um lado, ele se coloca fora da manada (“Admiro quem vai…”, “as motivações… não me iludem mais”), sugerindo que vê além do simples ato de marcar presença. Por outro, ele se força a ser humilde, admitindo que a “manada” pode ter razão e ele, não. É uma humildade dolorosa, não genuína.
· A Manada como Sistema: A “manada” aqui pode representar o sistema (corporativo, social, familiar) com suas regras não ditas de produtividade, constância e presença física. “Juntar-se” é uma adesão tática a esse sistema, mesmo que a alma rejeite sua lógica.
3. Conotação Crítica (Mas Não Absoluta)
O termo “manada” é classicamente usado de forma pejorativa para criticar a massificação, a falta de pensamento individual e o comportamento de rebanho (conceito explorado por filósofos como Nietzsche e psicólogos sociais como Gustave Le Bon).
No poema,essa conotação está presente na visão do eu lírico, mas é atenuada pela conclusão:
1. Ele não se considera superior de fato. A frase final mostra dúvida.
2. Ele reconhece uma virtude na constância da “manada”. Eles “pingam gota a gota até se encher” – há uma disciplina e uma resistência neles que ele admira, ainda que não compartilhe da mesma motivação.
3. A ação é consciente. Ele não se junta por instinto ou pura persuasão, mas por uma decisão calculada de evitar se tornar “ré” (ser julgado, excluído, punido). É um conformismo estratégico e melancólico.
4. Resumo: O que “Juntar-se à Manada” Significa no Poema
Significa aceitar temporariamente as regras do jogo social, abdicando momentaneamente da própria singularidade e desejo de isolamento, não por convicção, mas por uma combinação de:
· Medo das consequências (ser ré, ser excluído).
· Dúvida sobre a própria verdade (“eles podem estar certos”).
· Um cansaço profundo que prefere a paz de seguir o fluxo à guerra de resistir (“Eu só quero paz”).
É a imagem central do conflito do poema: a alma introspectiva e reflexiva (“meu mundo, minhas coisas”) versus a pressão do coletivo organizado e constante (“a manada”). O ato de “juntar-se” é, portanto, uma derrota tática, uma rendição prática, mas não uma capitulação espiritual — pois a consciência crítica e o desejo de fuga permanecem intactos, como revela todo o texto.
Essa nuance é que torna o poema tão poderoso e relacional. Ele não clama por uma rebeldia gloriosa, mas expõe a cinzenta e comum realidade de quem precisa se misturar para sobreviver, mesmo sentindo que não verdadeiramente pertence.

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