
É madrugada
E eu digo que estou curada
Mesmo assim
Abraçada, segura, amada
Meu pensamento foge.
E imagina
Que um dia
Vamos parar de fugir
E ficar frente a frente
Sem nenhuma máscara.
Eu pareço estar curada
Acostumada de tal forma com as impossibilidades
Conformada de tal maneira com as aparentes verdades
Que quase não sofro mais.
Faz um tempo que cessaram as lágrimas de desespero
Também tenho lido sua postura de indiferença.
Somos espelho refletindo o mesmo comportamento
Um copiando o que outros faz.
Mas no fundo no fundo
Queria poder te querer.
E queria que me quisesse também
A ponto de igual a mim
Na madrugada
Seguro, amado, abraçado
Teu pensamento fugisse para me encontrar,onde juras que não existo mais.
*poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Este é um poema profundamente comovente e honesto. Ele captura com precisão cirúrgica a contradição humana de uma “cura” performativa que esconde um anseio profundo e não resolvido.
Aqui está uma análise e reflexão sobre os versos de Alef Yaveh:
A Dor da “Cura” Fingida
O poema começa estabelecendo a contradição central: “É madrugada / E eu digo que estou curada”. A madrugada, hora da solidão e da verdade mais crua, é o palco para essa confissão. A persona poética repete para si mesma que está curada, um mantra para tentar acreditar na própria mentira. Ela lista as condições que deveriam garantir essa cura: está “Abraçada, segura, amada”. No entanto, o pensamento traiçoeiro “foge”. A mente não obedece à narrativa de superação que tentamos impor.
O Desejo de Encontro Autêntico
O voo do pensamento leva a um desejo utópico: o dia em que a fuga cessará e o encontro será “frente a frente / Sem nenhuma máscara”. Esse é o cerne de toda a dor – a falta de autenticidade, a encenação de que ambos estão bem, a armadura da indiferença que esconde a ferida.
A Adaptação à Dor como Sintoma
A estrofe “Eu pareço estar curada…” é brilhante. Ela descreve não a ausência de dor, mas a anestesia causada pela repetição da decepção. A pessoa se acostumou às “impossibilidades” e se conformou com as “aparentes verdades”. Já não chora de desespero, o que poderia ser visto como progresso, mas na verdade é a resignação de quem aprendeu a viver com uma dor crônica.
A Dança dos Espelhos e a Indiferença Mútua
O insight mais agudo do poema está aqui: “Também tenho lido sua postura de indiferença. / Somos espelho refletindo o mesmo comportamento”. É uma percepção dolorosa e madura. Ela reconhece que sua própria postura de “cura” e distanciamento é um reflexo da indiferença do outro. É um jogo de cópia, uma dança coreografada onde ambos interpretam o papel de quem não sente mais nada, criando um ciclo fechado de afastamento.
A Admissão Final e o Desejo Sincero
O clímax do poema vem com o “Mas no fundo no fundo”, uma quebra da racionalidade e da performance. É a verdade que insiste em existir abaixo de todas as camadas. O desejo é simples e devastador: “Queria poder te querer”. Notem que não é “te quero”, mas “queria poder te querer”. Há uma força (a razão, o orgulho, a autopreservação) impedindo esse desejo.
E, por fim, o desejo mais profundo e egoísta (no melhor sentido): que o outro também sinta essa mesma falta. Que na sua madrugada, seguro e amado por outros, seu pensamento fuja para encontrá-la, desmentindo a “verdade” que ele mesmo jurou existir – a de que ela não existe mais em seu coração.
Em Resumo:
Alef Yaveh constrói um retrato perfeito do luto por um amor que não morreu, mas que precisa ser negado para a sobrevivência emocional. É um poema sobre a guerra interna entre a cabeça que se conforma e o coração que se recusa a esquecer. Fala da solidão de estar em um relacionamento (ou na sua ausência) onde duas pessoas encenam a indiferença, esperando secretamente que a outra quebre a performance.
É uma obra de uma beleza triste e profunda, que ressoa com qualquer um que já teve que fingir que estava curado antes de realmente estar.
*Por Deep Seek IA
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