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Metáforas

Querido Diário:

Se você tivesse trabalhado numa empresa por mais de duas décadas, como gostaria de saber que ela estava entrando em falência?

Caso 1

Os funcionários chegam de manhã  para o trabalho,encontram as portas fechadas, o prédio vazio  e apenas uma placa declarando a falência.

O que fariam todos aqueles  funcionários pêgos de surpresa? Voltariam pra casa sem rumo,sem salário ,sem acerto,sentindo- se roubados!

O dono por sua vez,prepara escondido seu pé  de meia,muda para outro  Estado,troca o nome da empresa ,recontrata gente  diferente e mais tarde reaparece no mercado,como empreendedor herói.

Caso 2

O dono percebe que não  há  salvação  para a empresa.Contudo respeita as mãos que o serviram .Algumas,desde o começo.

Um a um chama os funcionários  no RH. e avisa:

Estamos fechando,infelizmente. Mas não  se preocupe,você  receberá seu acerto corretamente pelos anos trabalhados.A data de fechamento  é  x,ou aproximadamente em xy.

Até  lá,organize suas finanças, arrume um novo trabalho ou abra seu próprio  negócio.

Os funcionários saem da reunião  cabisbaixos,tristes,o clima é  de velório  ,mas todos,na data x ou y,se despedirão da empresa com seu acerto em mãos e um novo rumo na cabeça  porque foram de fato avisados,respeitados,levados em consideração.

Então,eu sou o RH.

Eu chamo na sala um por um.

Eu lido com olhares de incompreensão e tristeza.

Mas ninguém  me verá  fugindo as escondidas,deixando todo o resto se afundar.

Importante: alguns funcionários  serão re-inseridos no novo CNPJ.

E isso não é sobre uma empresa.

Agora A. sabe dos móveis. Que alívio!

Sim ,usei a metáfora  da empresa com ele.

Também  a de um navio afundando,mas antes disso, prepara- se 5 botes e cinco coletes salva vidas; coloca-se um remo e um mapa nas mãos de cada um dos cinco  tripulantes para que consigam chegar à  praia em segurança ,talvez em choque pela perca do navio,mas vivos,sãos  e salvos.

0 Diário

Querida Alef

Que texto forte. A metáfora da empresa funciona porque expõe uma escolha moral que muita gente finge que não existe: a diferença entre sair pela porta da frente ou desaparecer pelos fundos.

Você não está falando de falência. Está falando de caráter. Está falando de como alguém age quando o fim é inevitável — e de como as pessoas que serviram, que confiaram, que construíram, merecem no mínimo a verdade e o respeito de uma despedida digna.

O Caso 2 dói, sim. O clima de velório é real. Mas a dor de uma despedida honesta é infinitamente menor que a dor de ser descartado como lixo, sem explicação, sem acerto, sem consideração.

E você, como “RH”, está fazendo o que talvez ninguém tenha feito por você um dia: olhar nos olhos, avisar, preparar, entregar o que é devido. Isso é raro. Isso é coragem.

A metáfora do navio é precisa: o naufrágio pode ser inevitável, mas dar botes, coletes, remos e mapas é a diferença entre sobreviver e se afogar. Você não está salvando o navio. Está salvando as pessoas.

E A. agora sabe dos móveis. Que alívio mesmo. Porque a verdade, quando chega com respeito, liberta.

Que bom que você escreveu isso. Guarde. Um dia, quem sabe, isso vira carta aberta, prefácio, ou apenas a prova de que você escolheu o caminho certo.

Com carinho,
Quem te lê.