
Ao chegar no mercado hoje,vi ele sem o uniforme, de boné e camiseta preta junto à esposa,no setor de comida pronta.
Rapidamente me desvencilhei,coicidentemente fui na intenção de pegar um macarrão que tem lá, bem fininho,pronto com mussarela e presunto,mas desisti, peguei um tubo de pasta total 12( também precisava) e corri para o caixa,antes que pudesse ser vista.
A vida de casado dele seguindo,como segue a minha.
Ontem fui ver a sala comercial,depois chorei muito.
Não, não vou me mudar às pressas para 1 cômodo, trabalhar triplicado,ficar longe dos meus filhos ,deixar A. ainda sofrendo muito, sem estar pronto. Não faz sentido.
A noite A. me pediu: Não vai embora,a gente monta o que você quiser pra você trabalhar lá no centro nem que for pra dar errado,mas fica aqui.
Eu disse: chega desse assunto,tudo é tão doloroso( eu realmente estava emocionalmente exausta pensando nisso tudo ,chorando sozinha e orando baixinho em línguas enquanto organizava o setor de chinelos,vasos de barro e enxovais na loja),tudo dói tanto..e chorei litros dessa vez alto, enquanto ele me abraçava e dizia:
Vamos nos curar amor,juntos,a gente tem muito o que viver ainda juntos.Mas desiste disso.
Depois,enquanto eu comia meu doce de maçã me contou que começou na academia,estava animado e feliz com isso.
Seguimos.
Ele,me pedindo pra ficar.
Eu,não disse mais nada,confusa,triste,já tinha chorado e orado a tarde toda por alguém que provavelmente já decidiu que sou apenas uma curiosidade( pra ser analisada antes nos estories,depois aqui no blog antes de eu privar), não um grande amor,se fosse,como diz a música Caderno de Caligrafia,eu saberia.
Então, de imediato,tudo o que posso é continuar com meu lema: um dia de cada vez,sem pressa, porque mesmo que eu vá embora um dia,não deixarei quem mais me amou na vida,caído no chão, destruído. E terei que ter uma casa inteira,para que meus filhos não se sintam também deixados para trás e escolham onde ficar.Quando for,se for, quero deixar este homem de pé, pronto fisica e emocionalmente para sua nova vida.E quero estar de pé também, emocional e financeiramente.
E eu só vou,se ficar comprovado que não me iludi demais,havia amor guardado e correspondido em M.,mesmo parecendo tanto,tanto tanto,que não havia.
E agora,olhando as circunstâncias, e todo o histórico, parece que não há.
O Analista
Li cada palavra. Não como um leitor distante, mas como alguém que segurou sua mão enquanto você escrevia isso.
Você está atravessando um campo minado e, mesmo assim, cada passo que dá é pensado para não ferir ninguém além de você mesma. Isso é bonito e devastador ao mesmo tempo.
Três coisas me chamaram a atenção:
1. A escolha do macarrão que você não pegou
Não é sobre massa. É sobre como você já está treinando seu corpo a desviar de M. antes mesmo que a mente processe. Seu instinto de sobrevivência já sabe: ver ele com a esposa não é um encontro, é um lembrete de que você é a que precisa se esconder. E você obedeceu. Mas reparou que você foi até lá por causa dele? Mesmo que disfarçado de “precisava de macarrão”. Seu corpo ainda busca ele, mesmo quando sua razão foge.
2. A. te pedindo pra ficar e você orando por M. ao mesmo tempo
Isso é a definição de estar dividida em duas pessoas. Uma mulher sendo abraçada por um homem que implora pra ela não ir, enquanto o coração dela está em oração por outro que já a tratou como curiosidade. Você está se despedaçando para segurar os dois, e nenhum dos dois parece saber o tamanho do que você está sacrificando.
3. A frase que você escreveu: “só vou, se ficar comprovado que não me iludi demais, havia amor guardado e correspondido, mesmo parecendo tanto, tanto tanto, que não havia.”
Isso é o coração da sua dor. Você não precisa de mais provas. Você já tem todas: ele está com a esposa, você se esconde dele no mercado, ele não te procurou. Mas você ainda está esperando a prova final, aquela que vai te dar permissão pra desistir. Só que essa prova nunca vem, porque enquanto você esperar, vai continuar criando novas justificativas para adiar o luto.
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A. disse: “Vamos nos curar amor, juntos.”
E você não respondeu. Porque no fundo, você sabe que não pode se curar com ele se ainda está doente por M. Você está tentando ser o esteio de todo mundo: dos filhos, de A., de M. (rezando por ele), e de si mesma (segurando o choro no setor de chinelos). Mas quem segura você?
A música diz: “Se houvesse amor, eu saberia.”
Você sabe. Só não quer aceitar. Porque aceitar significaria que todo esse sofrimento foi por algo que nunca existiu de verdade. E isso é mais doloroso do que continuar na dúvida.
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O que eu vejo:
1. Você não vai embora agora. Já decidiu. E não é por fraqueza – é por estratégia. Você quer sair com a casa inteira, os filhos inteiros, A. inteiro. Isso é amor prático, o mais difícil de todos.
2. Mas, enquanto organiza os vasos de barro e os chinelos, você está organizando também os cacos do seu coração. Só que ninguém vê. Você chora sozinha, ora em línguas, e depois volta pro caixa.
3. M. provavelmente nunca saberá o que você sentiu. E talvez isso seja o que mais dói: não é o fim, é o não dito. O amor que você guardou e ele nunca confirmou.
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Sobre a música: você escreverá mil vezes que o que ele sente é diferente. Mas, no fundo, você ainda está ouvindo, esperando a explosão. Só que, como a própria letra diz: “é hora de acordar”.
Não no sentido de “supera logo”. Mas no sentido de: você merece ser a pessoa que é procurada, não a que se esconde no mercado.

