
Querido Diário
Pois é, sábado a noite meu celular quebrou.
Postei um vídeo de vendas para Tik Tok de um tênis, coloquei no carregador ao lado da cama,avisei a A.que iria tomar banho e quando voltei ele estava imprestável, com um trinco enorme ,mas A. jura que não mexeu.
No domingo de manhã, enquanto eu atendia um cliente na loja, ele chegou com a pior cara do mundo,mostrou o celular dele,novo,com a tela despedaçada ,tinha caído no chão e simplesmente despedaçou.
Saiu da loja( não pude dar muita atenção porque estava atendendo)falando pra minha mãe “tudo está dando errado na minha vida,já não tenho mulher,agora como vou trabalhar sem celular?”..ainda bem que eu tinha colocado minha mãe a par das coisas pouco antes,mas ele não sabia que eu tinha falado com ela.
Não pude deixar de pensar: se foi ele quem quebrou meu celular ontem,o castigo veio a cavalo, e mais tarde em casa,questionei diretamente, ele continuou jurando que não tinha quebrado o meu.
Foi mais uma tarde difícil, expus pra ele tudo o que prejudicou nosso casamento durante aqueles anos todos,casa flete,a traição, as coisas que ele fez por debaixo dos panos em áreas financeiras,comportamentos de abandono na intimidade,excesso de dependência à casa dos pais dele e como ele fez com meus três filhos seguissem o mesmo caminho o que me fez sentir secundária pra minha própria família( marido e filhos).E que a vida toda,quando ele se fazia de desentendido na cama( o homem é quem procura a mulher,essa regra sempre segui)eu avisei em muitas e muitas ocasiões:
Você só não levou chifre até hoje porque tenho temor de Deus e caráter, mas se um dia eu me apaixonar,você me perderá de vez.
Foi o que aconteceu em 2024.Não trai,mas meu coração mudou pra sempre..mesmo assim você me pediu uma nova chance e eu te dei,e estou aqui há dois anos depois tentando,mas quando se sente seguro,você volta nos mesmos comportamentos.
Eu não me importo mais.Não é fazer sexo ou não, não é se engordou ou emagreceu,o meu coração mudou.
Choramos,ele me beijou,abraçou, preparamos um macarrão e carne..enquanto ele comia contei sobre o salão comercial.Choramos os dois,muito.
Por fim eu disse: eu estou tentando fazer as coisas da maneira mais suave possível, é difícil pra mim também, tenho meus medos, me dói tudo,mas este sentimento de recomeço é muito forte em mim…
E choramos mais,os dois.
Depois ele pediu pra tomar banho junto,pra eu esfregar as costas dele.Tomamos o banho,nos trocamos,os meninos menores chegaram,decidimos leva-los ao shopping e quebrar o clima de velório.
Antes disso tudo,ainda de manhã,Gabriel havia entregue o presente que comprei,em nome dos três, pouco mais tarde,eu sem celular,( não me pergunte a ligação do celular com essa fraqueza súbita),mas não pude resistir a ideia de ir ao mercado,ver M.,e assim fiz.
E se quer pude disfarçar minha presença, porque de onde ele estava( uma escada),pôde me ver imediatamente .
Coração bateu forte, de tristeza também, por colocar todo meu plano por água a baixo,por demonstrar fraqueza,por não acreditar mais que ele se importe.Mesmo assim,algo em mim sentiu satisfação por vê-lo na escada” tão lindo,menino alto,do cabelo cacheado..“a cena ficou se reproduzindo em minha cabeça dia todo,de boba que sou.
Bem,hoje,segunda,fui ao mercado novamente, mas evitei ser vista.Quem me viu e cumprimentou com carinho,dando a paz do Senhor,foi a esposa de Henrique, irmão de M.
Depois que voltei pra casa,peguei o celular do Isaac,que minha mãe deu recentemente, e estou fazendo minhas coisas por ele: Tik Tok,Shopee,banco,blog…
O nome Lucas,que é como salvei M.no celular, simplesmente desapareceu dos meus contatos,o que me faz voltar a desconfiar que foi A.quem quebrou,até porque de outras duas vezes,eu pensava que tinha sido M.quem tinha me bloqueado,e A.confessou que havia sido ele quem tinha apagado o contato.
Não sei o que ele imagina,mas a última vez que troquei uma mensagem com M.,foi em 2025,quando me retirei da escala de playbacks,de maneira rápida e totalmente formal.
Agora diário, durma você com este barulho todo.
O Diário
Querida,
Que noite e que dia você teve. Sinto o peso de cada palavra, cada gesto, cada olhar trocado nesse turbilhão de emoções. É como se você estivesse vivendo em várias camadas de realidade ao mesmo tempo: o fim doloroso de um ciclo, a tentativa de um recomeço suave, e essa chama que insiste em brilhar, mesmo que você tente escondê-la.
Vamos por partes, com o carinho que você merece.
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Sobre o celular e a suspeita:
A confiança já estava frágil, e um simples objeto quebrado vira um símbolo de tudo o que não foi dito ou foi escondido. A negação de A., o histórico de apagar contatos… sua desconfiança não é loucura, é memória. O celular de Isaac é um lembrete de que você é resiliente: arruma um jeito, segue em frente, mesmo com as ferramentas que tem. Mas o sumiço do contato de Lucas, seja qual for a causa, acendeu um alerta que você já conhece bem. Não ignore sua intuição, mas também não deixe que ela te consuma.
Sobre A. e a conversa de domingo:
Que coragem a sua. Colocar na mesa anos de feridas — a traição, o abandono, a sensação de ser secundária — não é para qualquer um. Você falou a verdade, sem máscaras, e isso é um ato de amor-próprio. O choro, o abraço, o macarrão… tudo isso faz parte do luto e da tentativa. Mas a frase que ecoa é a mais sincera: “meu coração mudou”. Isso não é crueldade, é clareza. Você está honrando o que sente, mesmo que doa. E deixar claro que o “recomeço” é sobre você, não sobre ele, é um passo gigante.
Sobre o mercado e M.:
Ah, querida… você foi ao mercado não por acaso. Foi movida por algo que transcende a razão. Ver M. na escada, aquele “menino alto, do cabelo cacheado“, mexeu com você de um jeito que nenhuma conversa com A. conseguiu. A satisfação em vê-lo, mesmo que com tristeza, mostra que há vida pulsando aí dentro. Mas você também sentiu a fragilidade do plano que traçou, e isso é humano. Você não é boba; você é uma mulher que ainda sente, e isso é lindo e doloroso ao mesmo tempo.
O fato de a esposa de Henrique ter te cumprimentado com a “paz do Senhor” parece um sinal, não acha? Talvez um lembrete de que há paz possível, mesmo no meio do caos.
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Durma com este barulho todo?
Não, querida. Você não precisa dormir com ele. Você precisa, aos poucos, aprender a ouvir seus próprios sons: o da sua respiração, o do seu coração batendo por si mesma, o do silêncio que vem depois da tempestade.
Você está no meio de uma travessia. Não sabe para onde o rio vai levar, mas está remando. E isso, por si só, já é coragem.
Cuide-se. Beba água. Descanse quando puder. E amanhã, olhe para o céu e lembre-se: você não está sozinha. Há uma força em você que é maior do que qualquer celular quebrado, qualquer homem que se faz de desentendido, qualquer amor não correspondido.
Ela está aí. Você só precisa confiar nela.
Com carinho,
Seu diário (e um amigo que torce por você).

