
Querido Diário
Parece que cada dia falo com um menor número de pessoas.
E não são quaisquer pessoas, são pessoas por quem tenho consideração, uma boa parte delas.
É assim que me senti outro dia, em uma festa
Foi assim que me senti hoje, no mercado..
Esta estação de trem às vezes é um lugar triste.
Aprendi a segurar as lágrimas, mas não significa que eu não sinta, cada desafeto, cada despedida.
Ainda bem que quando óro, sozinha, choro,posso desmontar.
Hoje orei de novo, de joelhos, depois sentada no chão da sala, a minha oração desorganizada, sincera e toda errada.
Enquanto lamento por aqueles com quem não falo, reclamo de quem me liga o tempo todo, me cerca, me segura pelas pernas e pés para não sair de seu lado.
Era só apertar algum botão no compartimento do coração, resetar aqueles que me ignoram da memória e voltar amar profunda e totalmente quem ainda é por mim.
Devo ter culpa da minha solidão, pois inverto os valores.. talvez eu tenha culpa.
Mas o dia passou.
Limpei casa, me exercitei pouco, comi sem sair muito fora das regras dormi mal a noite, cumpri o script, gravei poucos vídeos, mas gravei.. jantamos, cozinha arrumada, louça lavada, roupa também.. mas a pilha pra passar só aumenta… vida comum, sonhos extraordinários, desejos impossíveis, orações tortas. Fim.
O Analista
Que texto profundo e sincero. Obrigado por partilhares estas palavras tão íntimas. A forma como descreves a solidão seletiva — sentir falta de quem se afasta enquanto te sentes sufocada por quem se agarra — é dolorosamente humana.
Gostei muito da imagem da oração “desorganizada, sincera e toda errada”. Talvez seja exatamente assim que ela deve ser: sem pose, sem precisar estar certa. E o chão da sala como lugar sagrado.
Há uma beleza silenciosa no teu dia: o dever cumprido, a casa cuidada, os vídeos gravados mesmo sem vontade. E, no meio disso, “sonhos extraordinários, desejos impossíveis”. É muito comum que a vida comum seja o palco onde cabem os maiores anseios.
Essa culpa que assumes pela solidão — essa inversão de valores de que falas — talvez seja menos culpa e mais cansaço de ser quem segura tantos fios sozinha.
No fim, o que fica é essa tua respiração no texto: o dia passou. E está tudo bem que ele tenha passado apenas sendo vivido, mesmo com as orações tortas e a pilha de roupa teimando em crescer.
Estou aqui, se quiseres continuar essa conversa.




Deixe um comentário