Códigos Das Minhas Emoções

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Viver

O que é por fim viver?

É ceder ao movimento externo, fazer o que me mandam, o que esperam de mim? Suprir expectativas?

Outra coisa senão isto, é rebelar-me? Ser egoísta?

Quantas vezes cêdo? Quantas vezes faço calar meus pensamentos pela perspectiva dos outros?

Quantas vezes arrisco minha sorte nesse jogo?

O que queres de mim afinal?

Que eu seja uma esposa contente e  romântica  para quem serves o jantar e exige pleno domínio no leito? Que recoste em teu peito sempre meio morto,roncando  e acordando pra segurar meu corpo ante o menor movimento?

Só isso é viver?

Porque assim estás em paz, porque tua paz sou eu..e eu preciso honrar tal privilégio!

Quem não  o quereria?

Mas minha mente trás batalhas mudas., querendo entender porque tenho que estar parada quando ainda preciso vencer e descobrir coisas novas.

Talvez isso seja viver .

Talvez minhas idéias de outra vida sejam arriscadas.Insensatas e o fim seja solidão.

Se busco coisas novas, de ingrata e teimosa, não hei de encontrar mais nada, só ilusões e bestas feras prontas pra me devorar.

Aqui está o telhado, os filhos, você.. e um viver morno,meu querer morto.

Meus sonhos mudos. Minhas idealizações abortadas para contentamento geral da nação.

*poesias de Alef

O Analista

Que texto poderoso e dilacerante. Essa não é uma pergunta, mas um grito. A poesia de Alef que você compartilha já contém em si a pergunta e a agonia da resposta.

Vou tentar desdobrar o que esse texto revela sobre “o que é por fim viver”.



Para o eu-lírico, viver não é o que está acontecendo.

Viver, no contexto desse poema, aparece como um paradoxo cruel:

1. Viver como submissão: A primeira definição que vem à mente é a que lhe é imposta: “é ceder ao movimento externo, fazer o que me mandam, o que esperam de mim? Suprir expectativas?” Aqui, viver é um ato de apagamento. É ocupar o lugar de objeto na vida do outro: a esposa que serve o jantar, que aceita o domínio no leito, que é o esteio da paz alheia. É uma vida onde o preço da segurança (telhado, filhos) é a morte do querer próprio.
2. A rebeldia como risco de aniquilamento: A alternativa a essa vida-morte é vista com medo. Rebelar-se é taxado imediatamente como egoísmo, insensatez ou risco de solidão. O texto mostra como a estrutura ao redor (talvez social, familiar, conjugal) patologiza a autonomia: “de ingrata e teimosa, não hei de encontrar mais nada, só ilusões e bestas feras prontas pra me devorar.”
3. A vida como guerra interna: O verdadeiro campo de batalha não é o mundo lá fora, mas a mente. “Minha mente trás batalhas mudas.” Viver, nesse estado, é estar em conflito constante entre o que se precisa para não sufocar (“vencer e descobrir coisas novas”) e o que lhe foi ensinado como certo (“honrar tal privilégio” de ser a paz do outro).

No fundo, o poema denuncia que o eu-lírico está vivendo uma vida de empréstimo.

Ela vive a paz do outro, a contentamento da nação, o projeto alheio. O que está em jogo na pergunta “O que é por fim viver?” é a tentativa desesperada de saber se existe um espaço onde o seu querer, mesmo que mudo, possa existir sem que tudo desabe.

A resposta que o poema dá (nas entrelinhas) é:

Viver não é estar parada quando se precisa andar.
Viver não é ter o querer morto para que outro esteja em paz.
Viver não é calar os próprios pensamentos pela perspectiva dos outros.

Por fim viver, para esse eu-lírico, seria o ato de romper com a servidão voluntária disfarçada de amor e segurança. Seria deixar de ser o “telhado” (a proteção) do outro para se tornar a própria casa. O poema termina sem essa resposta porque ela está em suspenso — entre o medo da solidão e das “bestas feras” e a constatação insustentável de que a vida que leva já é, ela mesma, uma morte lenta.

É um texto sobre o preço de ser mulher em um lugar onde o desejo próprio foi colonizado. Viver, ali, ainda é uma pergunta em aberto, mas o poema já sabe que a resposta não está em continuar onde está.

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