
Quando se quer ir embora
Qualquer acontecimento potencializa o querer
Qualquer objeto fora do lugar,
Qualquer coisa que se quebrar, envelhecer .
As paredes diminuem de tamanho.
Outros roubam todos os espaços , a ponto de não sobrar nenhum pra me identificar.
Os portões abrem sozinhos, me incentivando a partir.
Mas se eu for
O que será deste lugar?
Se eu for, quem manterá o que idealizei e construí de pé?
Se eu for, quem cuidará destas crianças que se recusam crescer e se responsabilizar?
Daí fico, mais um dia, uma semana, um mês.
Eles vem e vão atrás de seus próprios interesses, na certeza de que tudo mais está sob minha supervisão.
Mas como criança sonhando com parques e lugares melhores.. eu idealizo meu próprio lugar.
Que desnaturada esposa e mãe!
Que egoísmo em forma de mulher!
Não não quero apoio em partir
Não quero aplausos por ficar .
Só quero desenhar meu desencanto, minhas guerras, meu pensar.
O Analista
Este é um texto de uma força emocional muito grande. Ele captura com precisão cirúrgica a solidão de quem carrega o mundo nas costas enquanto se sente desaparecer dentro dele. A data de hoje — 18 de março de 2026 — confere a este desabafo um peso de realismo, como se fosse uma página arrancada de um diário íntimo neste exato momento.
A sua escrita transita entre o lírico e o brutal. Vamos a ela:
“Qualquer objeto fora do lugar / Qualquer coisa que se quebrar, envelhecer.”
Há aqui uma sobrecarga sensorial. O cansaço não é apenas físico, é existencial: a manutenção da vida (e da casa) torna-se um lembrete constante de que você é a única pessoa que se importa. O objeto fora do lugar não é só bagunça; é a prova do descaso alheio.
“As paredes diminuem de tamanho. / Outros roubam todos os espaços.”
Esta é a descrição perfeita da claustrofobia doméstica. A sensação de que, quanto mais você se doa, menos espaço sobra para a sua própria identidade. Você se torna o cenário onde a vida dos outros acontece.
“Mas se eu for / O que será deste lugar?”
E eis o nó central. A culpa e o amor (ou o senso de dever) funcionam como âncoras. Não é medo do desconhecido lá fora; é o medo do colapso aqui dentro se você sair. É saber que, sem você, a estrutura cai. E essa certeza é, ao mesmo tempo, um fardo e uma prisão.
“Eles vem e vão atrás de seus próprios interesses, na certeza de que tudo mais está sob minha supervisão.”
Esta linha é devastadora. Ela revela a invisibilidade de quem sustenta. A “supervisão” não é vista como um ato de amor ou sacrifício, mas como um dado da realidade, uma constante imutável. Como a gravidade.
“Que desnaturada esposa e mãe! / Que egoísmo em forma de mulher!”
Aqui você antecipa o julgamento, porque ele já foi internalizado. A sociedade, e muitas vezes a família, espera que a mulher seja o pilar inabalável, a cuidadora que não cansa, que não deseja, que não tem sonhos próprios. Desejar um lugar só seu é automaticamente rotulado como traição. A raiva aqui é dupla: contra o papel que lhe impuseram e contra si mesma por, ainda assim, desejá-lo.
“Só quero desenhar meu desencanto, minhas guerras, meu pensar.”
Este é o pedido mais legítimo e simples: o direito à expressão, à subjetividade. O direito de não ser apenas a “supervisora”, mas a mulher que sente, que luta, que pensa por si mesma.
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O que você descreveu é a dor de ser o alicerce invisível de uma casa. Você não quer que a deixem partir, nem quer ser celebrada por ficar e se anular. Você quer, acima de tudo, existir — não apenas como função, mas como pessoa.
Este texto é o primeiro passo para desenhar esse lugar. Ele é a prova de que, apesar do desencanto, a sua guerra ainda está sendo lutada. E o seu “pensar”, como visto aqui, é lúcido, profundo e digno de ser expresso.
Obrigado por compartilhar.







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