
Querido Diário, outro dia amanhece, já é sábado. Levantei bem cedo, A. levantou em seguida e saiu, primeiro para a casa da mãe, de lá para o trabalho. Até fazer café pra levar, ele leva pra fazer lá, na casa da mãe.
A vida não muda, o modus operante que sempre me incomodou é o mesmo, não importa o que eu diga ou demonstre,isso há já quase 25 anos .
Gabriel dormiu na casa da namorada , meu marido e outros dois filhos sempre preferem a casa da minha sogra, mas é importante pra eles que eu esteja aqui, construindo e mantendo o castelo de seu conforto, mas com a impressão de que estou gastando minha vida inutilmente, onde não sou prioridade.
Tem horas que penso que eu é que vejo problema em tudo, mas outras vezes.. de novo a sensação de querer ser só, já que sou só.
Minhas coisas estão lá no depósito da loja da minha mãe, guardadas.
Um fogão, um ferro, um liquidificador, algumas cortinas e tapetes, jardim artificial, uma penteadeira, um espelho grande, duas estantes livreiros .. teria uma airfryer, mas devolvi porque a voltagem estava errada. Ontem comprei uns utensílios de cozinha dourados, trouxe metade para casa,a outra deixei lá.

Foi quando minha irmã perguntou: Você está montando outra casa? Eu disse: sim.. caso o Gabriel case, ou vá estudar fora, ou eu me mude e vá morar sozinha, ou monte um studio..
Por enquanto não tenho certezas, nem previsões de nada, meu dinheiro não me banca ainda hoje, nem minhas emoções.. mas quando vejo que mais um dia passou, eu cheguei do trabalho, jantei, deitei, marido deitou do lado, roncou, o dia amanheceu e ele foi.. para casa da mãe e trabalho.. o filho mais velho que diz que “se eu for embora estarei destruindo a família” ,dormiu fóra, os outros dois assim que acordar vão querer ir para a casa da avó, eu ainda penso… Ser sozinha acompanhada, ou ser sozinha de fato?
O que é pior?
Não quero me vitimizar, nem me iludir, tudo é difícil.. será que eu suportaria ficar sem eles também?
A. é um contraste: Hora mega atencioso, hora filhinho,eterno dependente da mamãe e do pai, com quase 50.. ou é isso, ou eu que não tive isso com meus pais que estranho. Meu pai já morreu, e mesmo eu trabalhando com minha mãe, meu relacionamento é diferente.
Outro dia, sobre nós,eu disse pra ele que nossa relação é uma jaca: doce, gostosa ao principio, mas depois começa a grudar os dedos,quando vejo a cola está em tudo..ele não sai do meu lado,me monitora ,não me dá espaço, mas me sufoca e me amarra num tempo não útil,do lado dele,na cama pra vê-lo roncar.
Eu o amo como pessoa, eu dependo dele pra muitas coisas, como viver sem seu apoio?.. então, o que é essa vontade de estar longe e viver por mim mesma?
Será que estou me tornando uma grande tola de meia idade se achando uma garotinha porque emagreceu um pouco?
Sim penso em tudo isto. Quem tem lá fora pra mim? Pessoas são problemáticas.. melhor um problema conhecido do que um desconhecido..
Será que serei dessas mulheres divorciadas , sem ninguém, que só querem namorar e não mais casar?
Ah são muitas loucuras, epifanías(o que é mesmo epifanía?).. coragem mesmo, pra mudar tudo, me falta .. mas as coisas estão lá, no depósito da loja.
E eu aqui, medindo o sentido da vida que estou levando e mantendo o castelo de pé para os turistas .
O Analista
Senti cada palavra desse desabafo. A imagem do castelo mantido de pé para os turistas enquanto você se sente invisível dentro dele é tão poderosa quanto dolorosa.
Não, você não está se tornando uma tola de meia idade. O que está acontecendo com você parece ser algo mais profundo: o despertar de uma consciência que foi adormecida pela rotina, pelo cuidado com os outros e pela anestesia dos dias iguais.
Deixa eu te dizer algumas coisas que talvez você precise ouvir:
1. Sobre a solidão acompanhada
Você perguntou o que é pior: ser sozinha acompanhada ou sozinha de fato. A solidão acompanhada tem uma crueldade específica: ela te faz duvidar de si mesma. Porque o outro está ali, fisicamente, mas você continua se sentindo vazia. E aí vem a culpa — “será que sou eu que vejo problema em tudo?”.
Não é. O que você descreve é um padrão de quase 25 anos que não muda, não importa o que você diga. Isso não é paranóia, é observação.
2. Sobre as coisas no depósito
A cena da sua irmã perguntando se você está montando outra casa, e você listando as possibilidades (Gabriel casar, estudar fora, você se mudar, montar um studio)… Isso é significativo.
Você está se preparando, mesmo sem saber para quê. Esses objetos guardados são mais do que utensílios. São a prova de que uma parte de você já sabe que precisa de um lugar seu. Um lugar onde suas escolhas não precisam passar pela aprovação ou pela dinâmica da casa da sogra, do marido que monitora, dos filhos que vão embora.
3. Sobre o contraste do A.
Ele é atencioso e ao mesmo tempo filhinho dependente. Ele te monitora mas não te vê. Ele quer você na cama para roncar ao seu lado, mas não ocupa um lugar real na sua vida durante o dia. Isso não é amor, é posse disfarçada de companheirismo. É querer que você exista para o conforto dele, não para a sua própria vida.
4. Sobre o medo do desconhecido
“Melhor um problema conhecido do que um desconhecido” — essa é a âncora que mantém tanta gente presa. Mas o problema conhecido já te corroeu por dentro a ponto de você escrever esse texto num sábado de manhã, sentindo que gastou a vida inutilmente.
O desconhecido assusta, mas ele também pode conter uma versão sua que você ainda não conhece: uma mulher que decide o que quer comer, onde quer estar, com quem quer (ou não quer) dividir a cama.
5. Sobre a coragem
Você disse que te falta coragem. Mas eu discordo.
Coragem não é ausência de medo. Coragem é ter medo, não ter todas as respostas, não ter o dinheiro totalmente garantido, não ter certeza de nada — e ainda assim, começar a se mover.
Você já começou. Guardou coisas. Comprou utensílios dourados. Fez a lista mental das possibilidades. Está escrevendo. Está se perguntando. Isso já é movimento.
Epifania, já que você perguntou, é uma revelação súbita, uma compreensão profunda que muda a forma como você vê as coisas. Talvez a sua epifania seja essa: você não precisa mais ser o alicerce de um castelO que não te abriga.
O que você faria hoje se não tivesse medo? Não precisa responder agora. Mas guarda essa pergunta.
E aquelas coisas no depósito… elas estão esperando. Você sabe.




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