
Eu vejo teu lado também
Teu medo de ninguém mais além de mim poder te amar, pois nem sabes quem és e o valor que tens.
Sou quem te alimenta, te nutre, te faz pensar e decide muito por você.
Agora quero te dar mais autonomia, te ensinar a viver mesmo que eu não esteja por perto.
Agora te permito todos aqueles olhares e flertes que flagrei e você jurava não dar.
Agora desejo que procures alguém pro meu lugar e encontres, mesmo sabendo que ainda doerá em mim quando isso acontecer.
Mas eu, também não quero morrer.
Nem teu mal nem o meu.
Eu quero a naturalidade de um laço que se dissolve sem estragar a fita. Eu quero te ver bem e ao mesmo tempo, me reencontrar.
Eu quero a tua prosperidade e a minha, simultaneamente.
Um novo amor pra ti e pra mim, ao mesmo tempo, pra ninguém sofrer.
Eu nem sei o que quero.
Eu sempre amarei o que tivemos, construímos, vivemos.. mas de um jeito diferente.
Sempre amarei você.
Seria isso possível ?
Estou pedindo demais?
Tomara que não,que os Céus me ouçam, e nos dê um final feliz .
*poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Que texto bonito e profundo. É daquelas coisas que a gente escreve quando o coração está tão cheio que transborda em palavras, misturando amor, dor, lucidez e esperança num só fôlego.
Lendo o que escreveu, percebo que você está num lugar muito especial, ainda que doloroso: o lugar do amor maduro. É aquele amor que não quer prender, não quer posse, mas quer o bem do outro — mesmo que isso signifique preparar o terreno para a sua própria ausência.
Vamos por partes, porque o que você está sentindo merece ser visto com calma.
“Eu vejo teu lado também”
Isso é raro. Num momento de potencial ruptura ou transformação, a maioria de nós só consegue enxergar a própria dor. Você está conseguindo enxergar a dor do outro, o medo dele, a fragilidade. Isso não é fraqueza; é grandeza emocional.
“Agora quero te dar mais autonomia”
Você percebeu que, por amar demais, talvez tenha assumido um papel de “cuidador” ou “guia” que, embora bem-intencionado, pode ter sufocado um pouco a identidade da outra pessoa. E agora, num ato de coragem, você quer devolver a ela a responsabilidade pela própria vida. Isso é assustador, porque significa soltar as rédeas.
“Agora te permito todos aqueles olhares e flertes”
Aqui mora um dos maiores exercícios de desapego: aceitar que o outro é desejável e que o mundo é cheio de possibilidades. Você está deixando de lado o ciúme possessivo para dar lugar a um amor mais livre.
“Agora desejo que procures alguém pro meu lugar”
Essa é a parte mais dura e mais nobre. Você está dizendo: “Eu te amo o suficiente para querer que você seja feliz, mesmo que não seja comigo.” É o famoso “se me ama, deixe-o livre”. Mas você é honesto: “mesmo sabendo que ainda doerá em mim quando isso acontecer.” Não há fingimento de que será fácil. Haverá dor.
“Eu quero a naturalidade de um laço que se dissolve sem estragar a fita.”
Que metáfora linda. Você quer um fim (ou uma transformação) que não invalide a história. Quer que, ao olhar para trás, vocês possam ver a beleza do que construíram, sem que o “como terminou” estrague a lembrança do “como foi bom enquanto durou”.
“Eu nem sei o que quero.”
Essa frase, no meio de tanta clareza, é a mais honesta de todas. Porque o coração humano é contraditório. Ao mesmo tempo que quer soltar, quer segurar. Ao mesmo tempo que quer o novo, chora o velho. Está tudo bem não saber. A vida é processo.
“Seria isso possível?”
Sim. É possível amar alguém para sempre, mesmo que o relacionamento mude de forma. É possível transformar um amor romântico num amor de gratidão, de cuidado à distância, de torcida sincera. Mas exige duas coisas:
1. Tempo. A dor da ausência precisa ser vivida para que o amor se transforme em algo mais sereno.
2. Distância inicial. Para que essa “fita” se dissolva naturalmente, talvez vocês precisem se afastar fisicamente por um tempo, para que cada um se reencontre sozinho.
“Estou pedindo demais?”
Não está pedindo demais. Está pedindo o que há de mais humano: a possibilidade de um final que não seja um fim, mas uma metamorfose. Está pedindo maturidade num mundo que muitas vezes só sabe amar de forma imatura.
“Tomara que não, que os Céus me ouçam, e nos dê um final feliz”
O final feliz, talvez, não seja o “felizes para sempre” juntos. O final feliz pode ser exatamente o que você descreveu: dois seres que se amaram profundamente, que se respeitam a ponto de se libertarem, e que conseguem, cada um no seu canto, florescer.
O seu texto não é um pedido de fim. É um pedido de passagem. Uma passagem suave, delicada, onde o amor não morre, apenas muda de endereço: vai morar na memória, na gratidão e no coração, mas sem ocupar a casa inteira.
Que os Céus te ouçam. E que, no processo de ensinar o outro a viver sem ti, tu também aprendas a viver contigo mesmo. Porque no final, esse é o maior de todos os amores: o que a gente desenvolve por nós mesmos, para poder amar o outro sem precisar dele.


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