Códigos Das Minhas Emoções

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Montanha do Grito

Talvez nem aqui mais  eu possa desabafar.

Aqui,minha montanha do grito sufocado .

Quem sabe a curiosidade esteja a me olhar com olhos maldosos, e eu só quero ter onde tratar o que me fere,mas não quero ficar vulnerável e exposta a quem deseja usar isto contra mim.

Deus, me preserve..

A verdade é que ainda sinto tanto.. mesmo oscilando, e eu queria mesmo que fosse você quem viesse me ler, ou quem tira algo de bom daqui pra usar em si mesmo,não alguém com curiosidade maldosa.

Eu ainda vou ao mercado. É mais longe, eu poderia ir aos que são  mais perto, mas ainda quero te ver.

E quando vejo, é  estranho,continuo fingindo que não me importo e agora que você aprendeu o jogo, me despreza também, e dói.

Ainda lembro da reação que teve no primeiro dia, e quando mesmo de longe eu percebia o efeito da minha presença e seus pés virados na minha direção, até o dia que A. foi comigo e daí você mudou totalmente.

Oráculos disseram que você  acha que não gosto de você, que existe um homem do cabelo claro, (meu marido, antes loiro, agora grisalho) e enquanto ele estiver comigo, você não se aproximará.

Oráculos mentem.. quem garante que você se aproximaria mesmo que eu fosse livre?

E nesta angustia,sigo eu,hora achando que não  devo me separar nunca, que é um absurdo-meu filho mais velho me ouviu discutir sobre isso com o pai, perguntou porquê, eu contei apenas a parte  que estou exausta de ser a empregada de todos na casa, ele até prometeu ajudar um pouco nas tarefas,frz um movimento , guardou as roupas passadas que deixei na lavanderia,o pai fez janta,passou o pano no chão,meu filho pediu pra eu não ir embora,disse que eu destruiria nossa família.. isso me cortou. Eu não disse que também queria ficar só pra sinalizar minha liberdade a você, porque esta não passa de uma aposta minha,uma aposta que posso perder; uma esperança ridícula, que pode realmente me tirar  a única pessoa que parece se importar quase mais comigo do que consigo mesmo e não me dar nada em troca..

Mas aí te imagino, e te quero.. e como continuar querendo você e dormindo ao lado dele?

E como voltar a ama-lo como antes “se eu gostava de mim,mas quem eu era já não posso ser?”

E assim já não vou a Igreja também. Se fosse, me colocariam pra pregar, se fosse com ele, reforçaria meu casamento publicamente perante os irmãos..

Ah eu orei hoje cedo. Devo estar errada. Devo reajustar minha casa,voltar a ser a atalaia ,a guardiã  espiritual de todos.. mas por dentro, me perguntando como seria se me amasse também e tivéssemos livres pra viver o que sonho viver .

*Diário de Alef

O Analista

Sinto muito que você esteja se sentindo tão sozinha e vigiada, mesmo neste espaço que deveria ser seu. O que você escreveu é muito íntimo, e a coragem de colocar tudo isso pra fora, mesmo com medo de olhares maldosos, já mostra uma força imensa que existe em você.

Deixe-me tentar te oferecer um olhar de fora, sem julgamento, apenas acolhendo o que você sente:

Sobre o peso e a solidão: Você descreve uma montanha de gritos sufocados. É exaustivo carregar tudo isso. A sensação de ser a “empregada de todos” em casa é um cansaço que vai além do físico, é um cansaço da alma, de não ser vista como alguém que também precisa de cuidado. É compreensível que, nesse vazio, a mente busque outros lugares, outras pessoas, outras possibilidades de afeto e reconhecimento.

Sobre o “outro”: O homem do mercado, os pés virados na sua direção, o jogo de desprezo que dói. Ele parece representar, na sua vida, uma porta para uma versão sua que existe fora das suas obrigações: a mulher desejada, vista, que causa um efeito. Mas, como você mesma percebe, ele é um espelho. Você o idealiza como a chave para uma liberdade que, na verdade, precisa ser conquistada dentro de você primeiro. Os oráculos mentem, sim, porque tentam dar respostas simples para emoções complexas. O que você sente por ele é real, mas talvez o que ele simbolize (a possibilidade de recomeço, de ser cuidada, de paixão) seja ainda mais forte do que o homem em si.

Sobre o casamento e a família: A cena com seu filho é dilacerante. Ele te ouviu, teve medo, e reagiu. A culpa que você sente agora deve ser um peso enorme. Mas é importante separar as coisas: seu filho tem medo de perder a estrutura da família como ele a conhece. A responsabilidade de manter essa estrutura, no entanto, não pode ser só sua, às custas da sua saúde mental e emocional. Você não destruiria a família por querer ser feliz ou por estar exausta. A família já está em desequilíbrio se um dos pilares (você) está à beira do colapso.

Sobre a fé e a culpa: Você ora, se questiona, se sente errada. A fé, que deveria ser um porto, parece ter se tornado mais um lugar de cobrança e de “reforçar” uma imagem que não te representa mais. A sua fé e o seu relacionamento com Deus não precisam ser sobre ser a “guardiã espiritual” infalível. Talvez, nesse momento, a sua oração mais verdadeira seja exatamente esse desabafo, essa confusão. Deus cabe no seu questionamento, na sua raiva e na sua dúvida também.

No fundo, o que você parece estar vivendo é um luto: O luto pela mulher que você era, pela paixão que sentia pelo seu marido, pela liberdade que imagina que poderia ter. E o luto é um processo oscilante, confuso e doloroso.

A verdade é que não há respostas fáceis. Mas você deu um passo importante ao nomear tudo isso. Não se julgue por sentir. O desejo não anula o amor que você sente pelo seu marido e pelos seus filhos. Ele é um sintoma de que algo em você precisa de atenção, de cuidado, de mudança.

Talvez o caminho não seja decidir agora entre “ficar” ou “ir”, mas sim começar a se aproximar de você mesma. O que você quer, além dele? O que te daria prazer, além de ser desejada por ele? Se pudesse, o que diria ao seu marido sobre o cansaço, sem ser na hora da raiva?

Procure um ombro amigo de verdade, um terapeuta, um espaço onde você possa falar tudo isso sem o medo de ser julgada ou ter suas palavras usadas contra você. Você merece se escutar. E merece, acima de tudo, encontrar um jeito de viver que não te exija tanto sacrifício. Você não está errada por sentir. Você está, talvez, acordando para uma dor que estava adormecida há muito tempo.

Alef:

aqui é minha terapia, meu marido é melhor do que eu possa descrever aqui, e na verdade quando penso no que quero de verdade, a resposta ainda é o rapaz do mercado

O Analista:

Entendo. Essa clareza, mesmo dolorosa, é importante. Você nomeou algo fundamental: o que sente pelo rapaz do mercado não é uma fuga do seu marido, não é uma reação ao cansaço da rotina ou uma falha em enxergar o valor do que tem em casa. É um sentimento que persiste mesmo quando você reconhece, conscientemente, que seu marido é bom, que ele é melhor do que você consegue descrever.

Isso torna tudo mais complexo, não mais simples. É mais fácil lutar contra um problema (o cansaço, a rotina, as falhas do outro) do que lutar contra um sentimento que simplesmente é. Você não escolheu sentir isso. Ele chegou, ocupou um espaço, e agora coexiste com a sua vida real, com o homem que divide o teto e a história com você.

O que significa, então, quando a resposta ainda é ele?

Talvez signifique que você está diante de um espelho que reflete não o que falta no seu marido, mas o que falta em você. O rapaz do mercado pode representar:

1. A versão sua que existe fora dos papéis. Fora do “esposa”, “mãe”, “guardiã da casa”. Ele viu em você algo que talvez você não veja mais: a mulher que causa um efeito, que desperta curiosidade, que tem um mistério. Quando você o vê, vê também um vislumbre de quem você era ou de quem poderia ser se não estivesse tão carregada de responsabilidades.
2. O desejo de ser descoberta. Seu marido já te conhece. Ele sabe seus hábitos, suas manias, seu cansaço. O rapaz do mercado te vê com outros olhos. E você, talvez, tenha um desejo profundo de ser vista de novo, de ser “lida” por alguém que não sabe tudo sobre você, que ainda tem a curiosidade do primeiro capítulo.
3. A possibilidade, não a certeza. Ele é uma aposta, uma esperança. O desconhecido tem um poder de sedução enorme justamente porque não tem os problemas do conhecido. Você não sabe como ele é de manhã, como reage ao estresse, se ele lava a louça. Na sua mente, ele pode ser tudo o que falta, porque a realidade ainda não o contaminou.

E agora, com essa clareza?

Seu desafio não é mais “decidir entre um e outro”. Parece que seu desafio é outro: como viver com esse sentimento sem que ele te consuma ou destrua o que você reconhece ter valor?

Algumas perguntas talvez possam te acompanhar, não para serem respondidas agora, mas para serem pensadas:

· O que exatamente você sonha viver com ele? Não o “amor” abstrato, mas o que você imagina? Conversas? Toques? Rotina? Fuga?
· Se amanhã ele se aproximasse e dissesse “estou aqui, sou seu”, o que você faria? Essa resposta pode te dizer se você quer ele ou se quer a possibilidade que ele representa.
· O que você acha que sentiria se, daqui a cinco anos, ele não estivesse mais lá, mas você continuasse exatamente na mesma rotina de hoje? O arrependimento seria pelo homem que não teve, ou pela vida que não mudou?

Você não precisa se odiar por isso. Não precisa se culpar. Sentir é humano. A questão é o que você faz com o que sente. Você está, neste momento, honrando a complexidade disso ao invés de fugir. Isso é coragem.

Continue escrevendo, aqui é seu espaço. Seu “diário de Alef”. Guardião dos seus segredos e das suas perguntas sem resposta.

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