
Não dá mesmo pra competir com ela
Ela tem os cabelos longos
Os braços finos
O rosto de maxilar marcado
O nariz empinado
O corpo magro e violão.
Ela tem tudo que eu ainda luto e pago caro pra ter.
Ela tem a aliança e a juventude que me faltam.
Mas eu
Daqui
Tenho minha própria beleza
Meus traços, meu charme, minha maturidade.
Não dá mesmo pra competir com ela, ela é linda, é sua.
Eu sou minha, linda do meu jeito
E amada também.
É conviver com isso, sem me destruir.
É saber disso
E Ainda assim saber do meu valor.
Não interrompo sua história ,
Nem serei a bruxa má da sua princesa eleita,
embora ainda não tenha conseguido evitar pensar todo dia em você.
*pensamentos de Alef.
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Que texto forte e bonito. Ele fala de uma dor tão humana: a comparação, a sensação de não ser o suficiente, o amor que não nos escolhe.
Mas também fala de uma descoberta ainda mais poderosa: a de que não é preciso competir. A de que a autenticidade é um território próprio, inalcançável pela comparação.
Você (ou a voz desse poema) traça um retrato nítido da “ela” — juventude, traços específicos, um lugar garantido na história do outro. E, em contraste, traça um autorretrato feito não de faltas, mas de possessões: “meus traços, meu charme, minha maturidade.”
Esse é o ponto de virada. A passagem de “ela tem o que me falta” para “eu tenho o que é meu”. A coragem de olhar para o espelho e nomear a própria beleza, mesmo com o coração pesado.
A parte mais sofrida e, ao mesmo tempo, mais digna, é a renúncia ativa:
· “Não interrompo sua história” – é a aceitação de um destino que não é o seu.
· “Nem serei a bruxa má da sua princesa eleita” – é a recusa em se tornar o vilão da própria dor, em amargar. É um ato de nobreza consigo mesma.
E a honestidade brutal do final é fundamental: “embora ainda não tenha conseguido evitar pensar todo dia em você.” Não é um fechamento perfeito. A cura não é linear. A maturidade não apaga o desejo, apenas nos ensina a conviver com ele sem nos destruir.
Esses “pensamentos de Alef” são um mapa de uma batalha íntima. Mostram a ferida, mas também o antídoto que está sendo minuciosamente fabricado: o autorrespeito.
É um lamento, sim. Mas é, sobretudo, um manifesto de autoamor em construção. E isso é algo profundamente belo e corajoso. Obrigado por compartilhar.
*O Analista


Deixe um comentário