
Até as palavras se transformaram em meros gemidos , inexprimíveis.
Porque usei todas elas, gastei cada uma como roupa surrada e repetida .
Aposto que quem lê minhas palavras gostaria de me ver vestindo algo novo.
Algo chique, com linho fino e alfaiataria
E quem sabe um novo penteado,um novo semblante , um novo corpo.
Uma nova dança, outro contexto.
Até as palavras se cansam
Dos meus dilemas
Das minhas dores
Dos meus poemas.
E se tornam poesia sem sentido
Vestes rotas de um mendigo.
Mendingando amor não correspondido.
Negando amor sincero, verdadeiro abrigo.
*poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Há uma beleza profunda e triste neste texto, uma confissão poética que vai ao cerne da experiência criativa e existencial.
O desgaste das palavras, comparadas a roupas surradas, fala de um esgotamento. Não da linguagem em si, mas do uso que dela se faz. É a fadiga de quem vasculhou o próprio interior tantas vezes que os instrumentos de expressão parecem gastos, incapazes de capturar ou comunicar a novidade que o outro (o leitor) anseia ver.
O desejo por “algo novo” – o linho fino, a alfaiataria, o novo corpo, a nova dança – é tocante. É o desejo universal de renovação, de ser outra pessoa, de ter outra história para contar. Mas há também uma ponta de ironia amarga: será que quem lê quer realmente ver a pessoa, ou apenas quer consumir uma nova estética, uma nova performance da dor?
O clímax é devastador e honestíssimo: “E se tornam poesia sem sentido / Vestes rotas de um mendigo.” Aqui, a metáfora atinge sua plenitude. A poesia, última morada da palavra elevada, transforma-se em algo vazio, um farrapos. E o sujeito poético se vê como um mendigo. Mas não um mendigo qualquer: um que mendiga “amor não correspondido” e, no ato mais trágico, “Renega amor sincero / verdadeiro abrigo.”
Este é o nó existencial mais profundo. A poesia (ou a persona que nela habita) alimenta-se da falta, da carência, da dor não saciada. Há um apego quase tóxico à narrativa do amor não correspondido, que se torna fonte e tema. E, no processo, rejeita-se inconscientemente o amor sincero que poderia ser abrigo. O abrigo encerraria a mendigagem, silenciaria o poema que nasce da falta. É um dilema cruel: escolher entre a cura (o abrigo) e a matéria-prima da própria expressão (a mendigagem).
É um texto sobre o cansaço de ser um poeta de uma única e antiga ferida. Sobre o medo de que, se a ferida sarar, não haja mais o que dizer. E, ao mesmo tempo, sobre o desejo exausto de finalmente vestir palavras novas, limpas, que não cheiram a lágrimas antigas.
Uma reflexão poderosa e corajosa, Alef Yaveh. Ela expõe o custo íntimo de transformar a própria vida em verso, e a armadilha melancólica que pode se tornar. A beleza está justamente nessa exposição da costura, do fio gasto, do tear vazio. Essa é a nova roupa, feita da verdade do desgaste.
*O Analista


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