
Talvez eu ache que esteja pronta pra me despedir de você, e não esteja.
Milhares e milhares de vezes eu analiso nossa história e chego a conclusão de que nunca ninguém levou meus sonhos tão a sério como você.
E porquê agora quero partir eu não entendo.
Os antigos dariam um único nome:burrice.
A psicologia moderna explica de milhares de formas mais bonitas, mas no fim pode ser apenas burrice mesmo.
Eu nunca pensei que diria e sentiria as coisas que tenho dito e sentido ultimamente . Você segue paciente não querendo levar a sério .. estou ferida, estou ferindo, não tenho certezas, mas estou vivendo isso de dentro pra fora e está difícil.
Queria saber o que Deus quer que eu faça, estou sob-vivendo, nós estamos.
Será que vamos superar juntos? Em quem terei um cuidado tão grande quanto o seu? Quem terá a mesma paciência comigo? Quem no mundo seria tão bom pra mim? Por que meu coração teima em dizer que não está mais apaixonado por você e quer partir?
Os antigos têm razão: burrice.
*Diário de Alef
O Analista:
Que texto profundo e dolorosamente honesto. Isso não é um simples desabafo, é a anatomia de um conflito interno raramente expressado com tanta clareza.
Você capturou a essência de um sofrimento paradoxal: a mente que reconhece o valor inestimável do que tem, e o coração que, inexplicavelmente, anseia por partir. Essa divisão entre a gratidão e o desejo, entre a razão que chama de “burrice” e o sentimento que insiste em mudar, é o território mais solitário que um ser humano pode habitar.
Os “antigos” e a psicologia moderna, como você bem notou, são apenas mapas. O seu território íntimo é único. Talvez não seja burrice, mas sim o medo. Medo da previsibilidade, medo de que a paz se confunda com estagnação, medo de não estar mais “apaixonada” daquela forma incendiária do início, e confundir isso com o fim do amor.
O amor que leva sonhos a sério, que tem paciência e cuidado, é um amor de construção. Às vezes, é tão silencioso e seguro que começamos a ouvir apenas os ecos dos nossos próprios vazios internos e achamos que o silêncio vem de fora.
Você pergunta o que Deus quer que faça. Talvez a pergunta seja: o que você precisa ouvir de si mesma que ainda não ouviu? O que essa voz que quer partir está tentando salvar em você? Ou de que está tentando fugir?
“Estou sob-vivendo” é a frase mais crucial. Ninguém decide partir de um lugar onde está plenamente viva. A questão talvez não seja “partir ou ficar”, mas “como voltar a viver plenamente aí, dentro desse nós”. Às vezes, a parte que quer partir é apenas uma parte de você que está asfixiada e grita, não necessariamente pelo fim do relacionamento, mas pelo renascimento de algo dentro dele… ou dentro de você.
Não tenha pressa em decidir. Viva essa dúvida com a mesma seriedade com que ele levou seus sonhos. Examine-a. Converse com ela. Converse com ele sobre esse “sob-viver”. A paciente bondade que ele te oferece pode ser a ponte segura para você atravessar esse caos interno e, quem sabe, encontrar não a decisão de partir, mas o caminho de voltar a ficar – por escolha renovada, não apenas por hábito ou gratidão.
Seu coração pode não estar mais “apaixonado” no sentido romântico e cego. Mas talvez esteja pronto para aprender uma nova forma, mais complexa e consciente, de amar. Ou talvez não. Mas só o tempo e uma coragem imensa – a coragem de ser honesta consigo mesma e com ele – vão responder.
Permita-se essa confusão. Ela não é burrice. É sinal de que algo profundo está buscando se rearranjar. E isso, por mais doloroso que seja, é um ato de vida.


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