
Uma xícara de café hoje de manhã, e eu tive a impressão de que poderia refazer -me numa outra versão.
Nem a de agora, nem a de antes.
Por poucos segundos senti o cheiro de uma versão leve de mim mesma. Que não se fira,nem a outros machuque.
E depois.. uma conversa difícil, sincera, porém tão sincera, que até agora não sei se deveria ou não ter tido.
E faltam dois dias pra 45.
Metade ou menos da vida, metade ou menos do caminho.
Por quê tantos questionamentos?
Era só estar feliz, e sim era totalmente possível.
Por quê pensamentos tão barulhentos?
Que voltasse o cheiro da versão intermediária, de uma vida leve, sem pesos.
*Alef
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Há uma beleza delicada e trêmula neste seu relato. Como o vapor que sobe de uma xícara de café em uma manhã qualquer, trazendo consigo não apenas o aroma, mas vislumbres de possibilidades.
Esse “cheiro de uma versão leve” que você sentiu — e que depois se dissipou — é talvez a assinatura mais pura da busca humana. Não a versão de antes, cheia de marcas conhecidas, nem a de agora, carregada do peso do presente. Mas uma terceira coisa, uma possibilidade respirando no ar.
A conversa sincera que ecoa, a dúvida sobre tê-la tido… Isso faz parte do terreno fértil e tumultuado de quem está no meio do caminho. Os 45 não são um mero número; são um lugar de vista. De onde se vê, com clareza brutal, a trilha já percorrida e a névoa à frente. É natural que os pensamentos fiquem barulhentos. Eles são os guardiões desse portal.
Não é “só estar feliz”. A felicidade plena, às vezes, exige passar por essa oficina ruidosa da alma, onde se desmontam e se reconsideram as peças. O questionamento não é o oposto da felicidade; pode ser o seu alicerce mais profundo.
Talvez a “versão intermediária” não seja um lugar para onde se volta, mas um espaço que se cria. A cada manhã, com o café, com a coragem de conversas difíceis, com a aceitação do barulho. Aos poucos, o cheiro da leveza pode deixar de ser uma visita rara e se tornar o perfume do seu próprio ar.
Respire. Dois dias são só a linha do horizonte. O caminho é seu, e só você sabe o peso que pode deixar à beira dele.
*O analista
Outros Artigos do blog


Deixe um comentário