
12:03,de terça, está chegando a hora de ir trabalhar.
Desânimo bateu forte, a mulher que ia me alugar a sala comercial voltou atrás, e eu já gastei um bom dinheiro começando a comprar os móveis.
Também estou “enferma de amor” desde sábado.
Interessante que em Cantares este termo é usado. E eu hoje o reconheço muito bem, tanto que o primeiro sintoma, lá em Março de 2024 foi o que me fez escrever o primeiro post sobre este assunto aqui no blog, só não lembro se cheguei a postar publicamente ou se deixei entre os rascunhos, mas depois virou página do livro O Diário Secreto De Marina.
Estou enferma de amor,os sintomas principais são:Insônia, pensamentos constantes,encontros imaginários, não quero fazer mais nada, só ficar pensando “e se..” mesmo sabendo estar fóra de questão. Tudo porque ele esteve na loja..
Pode me julgar: patético, ridiculo, infantil, obsessivo.. qualquer coisa assim.
Eu jurei que 2026 deixaria isso para trás , mas ainda não superei.
*relatos de Alef
O Analista
Querida Alef,
Li seu relato com o coração aberto e sem um pingo de vontade de julgar. Só sinto uma profunda empatia pelo turbilhão que deve estar sendo esta terça-feira, 20 de janeiro, para você.
Primeiro, sobre dar com os burros n’água na sala comercial: que golpe baixo do destino. É mais do que justo sentir esse desânimo. Você investiu sonhos, planejamento e dinheiro em algo concreto, e ver isso desmoronar dói na alma e no bolso. Permita-se sentir essa raiva, essa frustração. São válidas.
E depois, essa “enfermidade de amor”… Não é patético, ridículo nem infantil. É profundamente humano. O que você descreve – a insônia, os encontros imaginários, a paralisia dos “e se…” – é a linguagem clássica de um coração que ainda sangra. O fato de você reconhecê-la, nomeá-la até com uma referência bíblica (“enferma de amor”, de Cantares), mostra uma lucidez dolorosa e poética.
É cruel como o acaso (ele aparecer na loja) pode desfazer em segundos os castelos de esquecimento que levamos meses ou anos para construir. E pior: vem acompanhado da autocobrança (“jurei que 2026 deixaria isso para trás”). Nos cobramos por não seguir uma linha reta de superação, quando na verdade o caminho é cheio de recuos, desvios e recaídas.
Não é uma derrota que em 2026 você ainda sinta isso. É um sinal de que a marca foi profunda. Algumas cicatrizes coçam para sempre, algumas memórias têm o poder de nos derrubar no dia mais comum do mundo.
Talvez o que você precise hoje não seja de julgamento, mas de acolhimento. Dê-se permissão para este dia ser pesado. Não lute contra os pensamentos com força bruta; observe-os passar como nuvens carregadas, sabendo que você não é as nuvens, é o céu por trás delas.
E que significativo que seu primeiro sintoma, em março de 2024, tenha gerado escrita. Virou páginas de um diário secreto. Talvez seja aí, na transformação da dor em narrativa, que reside parte da sua cura. Escreva sobre essa recaída também. Dê forma a esse monstro. Ele fica menor quando é nomeado no papel.
Hoje, para ir trabalhar, talvez seja só sobre colocar um pé na frente do outro. Sobre cumprir o turno com a gentileza de quem está machucada. O trabalho pode ser, por algumas horas, um refúgio, uma distração.
Você não está sozinha nessa sensação de naufrágio duplo — dos negócios e do coração. Respire fundo. O dia vai passar. A tempestade de pensamentos vai amenizar.
Com cuidado,
Um ouvinte silencioso que torce por você.
*Deep Seek IA
Alef pergunta:
Pode explicar a origem do termo “dar com os burros n’água”
e em seguida a expressão “enferma de amor” descrita em Cantares?
Resposta do analista:
Com certeza. As duas expressões que você usou são profundas e capturam perfeitamente a dualidade da sua experiência: uma frustração prática e um estado emocional intenso.
Aqui está a explicação da origem de cada uma:
🐴 A Origem de “Dar com os Burros n’Água”
Este ditado, que significa fracassar completamente ou ver seus planos irem por água abaixo, tem raízes no Brasil colonial.
· Contexto Histórico: Nos séculos 17 e 18, burros e mulas eram essenciais para transportar ouro, café e mantimentos por longas distâncias. Os condutores dessas tropas eram os tropeiros.
· Origem Literal: As viagens eram perigosas. Ao tentar atravessar rios ou áreas alagadas, os animais de carga podiam se afogar. Literalmente “dar com os burros na água” significava perder tanto a carga valiosa quanto o meio de transporte, resultando em ruína total.
· Significado Moderno: A expressão evoluiu para simbolizar qualquer empreitada que termina em um fracasso frustrante, um grande revés ou um desperdício de esforço — exatamente o sentimento quando um plano cuidadosamente elaborado, como o da sala comercial, desmorona.
💖 O Significado de “Enferma de Amor” em Cantares
Essa é uma das expressões mais poderosas e poéticas da Bíblia, aparecendo duas vezes no Cântico dos Cânticos (2:5 e 5:8). Ela descreve um anseio intenso e consumidor pelo ser amado.
· Uma Paixão que Consome: Expressa um amor tão profundo que é comparado a uma doença, que toma conta dos pensamentos e do bem-estar físico. Os sintomas que você descreveu — insônia, pensamentos constantes, desinteresse por outras coisas — são descrições clássicas desse estado.
· Dois Contextos Diferentes:
- Na Plenitude (Cantares 2:5): A primeira menção acontece em um momento de alegria íntima, uma “moléstia de amor” que nasce da felicidade de estar junto do amado.
- Na Ausência (Cantares 5:8): A segunda, mais comovente, ocorre quando o amado está ausente. Aqui, a “enfermidade” é a dor da saudade e da separação. A personagem chega a confessar publicamente essa angústia.
· Dimensão Espiritual: Tradicionalmente, o livro é visto não apenas como uma celebração do amor humano, mas também como uma alegoria do amor intenso e cheio de saudade entre Deus e o seu povo. Portanto, a frase captura um anseio que vai além do físico, atingindo a alma.
💎 Como Elas se Conectam à Sua Experiência
Juntas, essas frases pintam um quadro completo do seu momento:
· “Dar com os burros n’água” encapsula o revés externo e material — o investimento e os planos que ruíram.
· “Enferma de amor” nomeia o estado interno e emocional — aquele anseio profundo e paralisante que consome a energia.
É completamente compreensível que essas duas experiências, uma decepção prática e uma dor do coração, se encontrem e amplifiquem a sensação de desânimo. Dar um nome tão rico e histórico a esses sentimentos já é um passo importante.


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