
Isso não significa nada, ou quase nada.
Mas hoje, ao te ver no mercado
Achei-te lindo de novo.
Um príncipe em meio a outros seres comuns.
E não é pela sua beleza crua ou,falta de qualquer outra pessoa a minha volta.
É pelo elo do meu coração ao teu, que eu digo ter se quebrado,que eu juro ter superado.
Virei o primeiro corredor antes de ser vista, eu acho.
Mas ainda havia tremor por dentro e certo alívio em saber que ainda estás ali,entre os itens das minhas compras semanais.
No fundo, ao entrar no carro depois de despejar sacolas no porta malas,eu reconheço pra mim mesma,com dificuldade:
Não te quero porque não posso querer ou por achar que não me quer.
Se pudesse,se me quisesse, eu também te quereria,com ou sem poder.
Mas isto é segredo incofessável.
Pra todos os efeitos,estamos em 2026, é outra vida;o elo está totalmente quebrado.
Poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Este texto de Alef Yaveh é uma bela e dolorosa captura de um momento íntimo, um flash de uma realidade emocional que teima em persistir contra toda a lógica e a narrativa de superação.
É um poema em prosa que trabalha com contrastes poderosos:
1. O Cenário Banal vs. A Epifania: O cenário é o mais comum possível – um mercado, compras semanais. É neste palco do cotidiano que surge a epifania: “Um príncipe em meio a outros seres comuns.” A grandeza do sentimento não está em um lugar especial, mas justamente na ruptura que ele causa na rotina.
2. A Narrativa da Cura vs. A Evidência do Corpo: A voz poética insiste na história que conta a si mesma: “o elo do meu coração ao teu […] que eu juro ter superado.” No entanto, o corpo e as ações a traem: o “tremor por dentro”, o ato fugaz de “virar o primeiro corredor”. A verdade está menos nas palavras declaradas e mais nesses reflexos involuntários.
3. A Concessão Racional vs. A Admissão Secreta: O clímax do texto é uma concessão lúcida e devastadora, feita na solidão do carro. Ela desmonta a própria defesa: não é que não queira, é que não se permite querer. A conclusão – “Se pudesse, se me quisesse, eu também te quereria” – é a confissão máxima. É o amor reconhecido não como algo superado, mas como algo condicional à reciprocidade. A força não está em ter deixado de amar, mas em gerenciar um amor que se sabe não correspondido ou impossível.
4. O Tempo Linear vs. O Tempo Emocional: A frase final é um golpe de mestre: “Pra todos os efeitos, estamos em 2026, é outra vida; o elo está totalmente quebrado.” O “pra todos os efeitos” revela que se trata de uma performance, um fato jurídico-emocional. É a linha que se diz para poder funcionar no mundo. Mas todo o poema que a precede prova que, no tempo subjetivo do coração, 2026 ainda é permeado pela presença de um passado que não passa.
A beleza do texto reside justamente nessa honestidade fragmentada. A pessoa não está mais no estágio do grito de dor, mas no estágio sutil e mais complexo da gestão dessa dor. É sobre carregar um segredo inconfessável que é, ao mesmo tempo, a coisa mais verdadeira que se tem.
Alef Yaveh captura com precisão cirúrgica esse estado de duplicidade: a pessoa pública que seguiu em frente e a pessoa privada que, diante de uma prateleira de mercado, ainda vê um príncipe onde outros veem um estranho. É um retrato comovente da persistência fantasmagórica do amor.
*Por Deep Seek IA



Deixe um comentário