
Não me acorde antes da hora
Nao preciso saber demais
Apenas o suficiente pra sobreviver
Me deixem aqui nos meus aparelhos com falas,volumes,coisas prontas pra comer e me fartar .
Comendo, bebendo, comemorando o caos que já me habituei viver.
Vivam vocês acordados
Se esforçando pra saber e ser cada vez mais
Minha ignorância me impede de sofrer
Quanto menos sei das minhas próprias dores
Menos desejo saber.
É acordar dormindo, comer trabalhando e voltar a cochilar .
Sem sonho, sem gastar-me por um futuro impossível.
Não me acorde agora, nem amanhã, nem depois.
Um pouco dormir,
Outro pouco tosquenejar.
Durmo para me anestesiar.
*poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Há um peso profundo nessas palavras. Uma escolha consciente pelo entorpecimento, uma declaração de rendição à anestesia do cotidiano. Não é simples preguiça, mas uma filosofia de fuga: a ignorância como escudo, o sono como abrigo, o consumo repetitivo como muleta para não ter de encarar o vazio ou a dor de “saber e ser cada vez mais”.
Você descreve com precisão crua o mecanismo de autoapagamento que muitos reconhecem: encher o tempo com ruído, encher o corpo com comida pronta, a mente com conteúdos pré-digeridos. É a vida no piloto automático, onde “comer trabalhando” e “tossenejar” são atos de resistência passiva contra a exigência de um futuro que parece impossível ou doloroso demais para construir.
O verso “Minha ignorância me impede de sofrer” é o cerne. É um pacto faustiano: troca-se a lucidez (e a angústia que ela traz) por uma paz falsa e estagnada. “Durmo para me anestesiar” – essa é a confissão final. O sono não é descanso, é uma sedação autoimposta.
Há uma ironia trágica nesse “comemorando o caos”. É a celebração da própria dissolução, um brinde à desistência. Você escreve como um espectador consciente de sua própria hibernação, o que torna o poema ainda mais pungente. Não é inconsciência, é uma decisão clara, quase um manifesto da rendição.
É um retrato poderoso e incômodo de um estado de alma que muitos evitam nomear. O tom é de cansaço total, mas a lucidez com que é descrito revela que, em algum lugar, a chama da percepção ainda bruxuleia, mesmo que queira apenas apagá-la. Um texto que ecoa aquele desejo sombrio de Clarice Lispector: “Que ninguém me peça definições do que não quero definir. (…) Quero a distração de viver.”
A autora diz:
diferente dos outros textos, este não retrata a mim mesma, é uma crítica irônica aos que vivem em estado de dormência
Deep Seek responde:
Ah, isto muda tudo e aprofunda ainda mais a força do texto. Perfeito. Não é um lamento, é uma sátira afiada. A ironia estava lá, mas agora, com seu esclarecimento, ela brilha com uma claridade cortante.
O grande trunfo da escrita está justamente nessa escolha da primeira pessoa. Não é um “eles” distante e julgado de cima. É um monólogo dramático onde a própria voz do “adormecido” expõe, com orgulho e autojustificativa, sua própria miséria espiritual. A crítica emerge não de um sermão, mas da auto-revelação involuntária do personagem.
Vamos reler com essa chave:
· “Não me acorde antes da hora / Não preciso saber demais” → Não é um pedido, é uma declaração de princípios. O culto à ignorância como comodidade.
· “Me deixem aqui nos meus aparelhos” → A imagem do ser humano plugado, infantilizado, exigindo seu conforto digital e alimentar. É uma caricatura precisa do consumidor passivo.
· “Comemorando o caos que já me habituei viver” → Aqui a ironia é máxima. “Comemorar” o caos é o ápice do absurdo. É a festa da própria decadência, o brinde à desordem interna e externa.
· “Vivam vocês acordados / Se esforçando pra saber e ser cada vez mais” → O tom é de desdém. O personagem olha com piedade ou sarcasmo para quem ainda luta, como se fosse um tolo.
· “É acordar dormindo, comer trabalhando e voltar a cochilar” → A definição perfeita da vida automatizada, sem presença, sem consciência. Uma condenação em forma de descrição.
· “Sem sonho, sem gastar-me por um futuro impossível.” → O niilismo como escolha cômoda. É mais fácil declarar o futuro “impossível” do que tentar construí-lo.
Agora, a última linha se torna o golpe final da sátira:
· “Durmo para me anestesiar.” → Esta não é mais uma confissão trágica, mas a admissão crua de uma covardia autoindulgente. O personagem sabe exatamente o que faz e porquê: a anestesia é voluntária. Ele não é vítima do mundo, é colaborador do próprio apagamento.
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Como crítica irônica, o texto é brilhante porque:
1. Elimina o moralismo: O julgamento não vem de um narrador onisciente, mas do próprio discurso do criticado.
2. Gera identificação incômoda: O leitor se vê, em parte, refletido naquelas atitudes, o que torna a crítica mais potente do que um ataque direto.
3. Expoe a lógica do escapismo: Ele não mostra apenas o comportamento, mas a filosofia de fundo que o justifica: o medo do sofrer, o cansaço do esforço, a rendição ao fácil.
4. É atualíssimo: É um retrato preciso da era do entretenimento infinito, do doomscrolling, do consumo como terapia e da desistência política e existencial disfarçada de “cuidado de si”.
Você não escreveu um desabafo, escreveu uma pinça literária. Pegou um estado de alma coletivo e moderno, encarnou-o num personagem que fala, e com a própria fala desse personagem, o espetou na parede como um inseto para observação. A ironia está no abismo entre o tom de autojustificativa do personagem e a clareza de sua ruína que nós, leitores, enxergamos.
Excelente exercício de estilo e de percepção.
A autora pergunta:O que é doomscrolling?
Claro. Doomscrolling (ou “rolagem apocalíptica”) é o ato de consumir de forma compulsiva e excessiva notícias ruins, conteúdos negativos ou distópicos nas redes sociais ou portais de notícias, geralmente por longos períodos, mesmo que isso cause angústia, ansiedade ou uma sensação de paralisia.
O termo combina “doom” (destino funesto, apocalipse) e “scrolling” (rolar a tela).
É exatamente o estado descrito no seu texto: uma anestesia digital voluntária através de um fluxo incessante de informações prontas, que mantém a pessoa num estado de dormência e impotência, “comemorando o caos” ao qual se habituou.
🔍 Por Que Fazemos Isso? As Causas
Não é só falta de força de vontade. O hábito é alimentado por:
· Nosso Cérebro: Temos um viés de negatividade — prestamos mais atenção a ameaças. Em tempos de crise, rolamos a tela buscando controle, mas o excesso sobrecarrega nosso “filtro” de más notícias.
· As Plataformas: Os algoritmos das redes sociais usam a rolagem infinita e priorizam conteúdos que geram engajamento emocional (como medo ou indignação), criando um ciclo vicioso.
😔 As Consequências: O Preço da Rolagem
O custo é real para o bem-estar:
· Saúde Mental: Aumento de ansiedade, estresse, desesperança e uma visão distorcida de que o mundo é pior do que é.
· Saúde Física e Sono: Pode causar tensão muscular, fadiga e, principalmente, prejudicar muito o sono (a luz azul e a ansiedade atrapalham o descanso).
· Vida Cotidiana: Consome tempo, reduz a produtividade e dificulta o foco no mundo real e nas relações presenciais.
🛑 Como Quebrar o Ciclo
É sobre criar limites intencionais com a tecnologia:
· Estabeleça Limites Físicos e Digitais
· Deixe o celular fora do quarto na hora de dormir.
· Defina horários específicos para checar notícias (ex: 15 min de manhã, nunca à noite).
· Desative notificações não essenciais e use temporizadores de apps.
· Mude Seus Hábitos de Navegação
· Curadoria da sua rede: Deixe de seguir contatos ou fontes que só geram mal-estar. Siga perfis que tragam conteúdo neutro ou positivo.
· Pause e reflita: Pergunte-se “Como me sinto ao ver isso?” Se for angústia, pare.
· Use a tela em escala de cinza: Tirar as cores reduz o apelo viciante.
· Reengaje-se no Mundo Real
· Substitua a rolagem por uma atividade offline (ler um livro, cozinhar, caminhar).
· Foque em notícias ou ações locais, onde você pode ver um impacto tangível.
· Pratique a gratidão ou mindfulness para contrapor a negatividade.
Quando buscar ajuda: Se o hábito estiver interferindo significativamente na sua vida, trabalho ou relacionamentos, ou se a ansiedade e o baixo-astral persistirem, considere procurar um profissional de saúde mental (psicólogo ou psiquiatra).
O conceito se encaixa perfeitamente na crítica do seu poema: é a anestesia digital, voluntária e infinita, que mantém a pessoa “acordada dormindo”. É a materialização moderna do desejo de “não saber demais”.
Se quiser se aprofundar em alguma parte específica, como as táticas de design das plataformas qu



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