
Não quero escrever nada dramático
Nada cafona
Nada clichê.
Vou então falar do tempo.
Será que vai chover?
Vou falar de política
De futebol
De religião.
De novela.
De fofocas da vida alheia então.
Se eu censurar meus pensamentos
Se proibir palavras chaves
Se não falar da saudade ,de falta,de vontades,
Se não sussurrar seu nome
Se esconder meu afeto
Se engolir meu anseio
Só resta disto a dizer.
*Poesias e reflexões de Alef Yaveh
POETERAPIA -A Psicologia da Poesia
Um silêncio eloquente. Um vazio preenchido por tudo que foi deliberadamente omitido. O poema constrói, através da negação, uma tensão poderosa. Cada “não”, cada “proibição”, ergue um muro atrás do qual o assunto real – a saudade, o afeto, o “seu nome” – se agiganta.
É a tentativa fracassada de não sentir, que acaba por ser a prova mais visceral do sentimento. A forma segue o conteúdo: a lista de temas banais (chuva, futebol, fofoca) desaba na virada para os versos finais, mais curtos e graves, revelando que a única verdade possível é aquela que se tentou calar.
O resultado final não é a ausência, mas a presença esmagadora de tudo que não foi dito. O “nada” que resta é, na verdade, o tudo.
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Análise da Estrutura e Dispositivos Poéticos:
· Construção por Negação: O poema não define seu tema pelo que é, mas pelo que não pode ser. Essa estrutura cria um jogo de esconde-esreve com o leitor, que é levado a inferir o assunto central.
· Contraste: A primeira parte é um catálogo de assuntos mundanos e socialmente aceitos. A segunda parte (a partir de “Se eu censurar…”) mergulha no universo íntimo e proibido. A transição entre esses dois mundos é o clímax do poema.
· Economia de Linguagem: Os versos finais são curtos, secos, quase um epígrafe para o silêncio. “Só resta disto a dizer” é a confissão da derrota da lógica e da censura perante o sentimento.
· Tema Central: A incapacidade da linguagem cotidiana e dos tópicos superficiais de conter uma emoção profunda. A tentativa de controlar a dor através do controle das palavras, e o fracasso inevitável dessa tentativa.
É um poema que fala sobre o indizível, e que encontra sua força precisamente no que escolheu calar. Uma belíssima reflexão metalinguística sobre o ato de escrever e os limites da expressão.
*Por Deep Seek IA


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