
Eu tinha entre 7 e 8 anos, morava em São Paulo capital num bairro super simples com minha mãe, padrasto e irmãs. Naquela época sei lá, parecia que criança era bicho solto, e eram os ajudantes oficiais das mães para ir ao mercado , quitandas e etc.
Sim eu era também uma daquelas crianças que a mãe mandava comprar cebola e trazia tomate porque esquecia o que havia sido pedido no meio do caminho.
Isso era terrível, mas havia algo muito pior: Quando minha mãe me mandava comprar ovos.
Por dezenas de vezes os ovos se quebravam no meio do caminho Desajeitada que era,eu geralmente levava um tropeção e lá iam os ovos para o chão, ou simplesmente o saquinho caía das minhas mãos.Quanto mais eu falhava,mais medo pegava da próxima ida à Quitanda, quanto mais medo tinha, mais refém ficava do meu pavor e acabava falhando outra vez.
A questão é que como eram comprados na quitanda do bairro onde minha mãe tinha conta e pagava mensalmente , devido ao meu pavor de levar bronca, demonstrar incompetência e devido também a minha pouca idade e meu total convencimento de ser uma pessoa desprovida de sorte, quando o saquinho de ovos caía, ao invés de eu pegá-lo do chão,ir para casa e assumir a minha culpa por aqueles que se quebraram, eu simplesmente deixava o saquinho inteiro ali no chão ,voltava comprar outra dúzia, mandava marcar e disfarçava o máximo possível voltando para casa como se nada tivesse acontecido.
Claro que no dia de pagar as compras minha mãe não compreendia porque ao invés de uma dúzia estavam anotadas duas na caderneta do fiado da Dona Jovem. Há muitos parêntes nessa história que hoje com a idade que tem eu posso pensar e ver que em primeiro lugar a culpa não era 100% minha, eu era jovem demais para assumir a responsabilidade de ir sozinha ao mercado e trazer uma dúzia de ovos por todo o caminho dentro de um saquinho de plástico, talvez se tivesse assumido o meu erro na primeira dúzia quebrada,minha mãe teria percebido isso e passasse a ir pessoalmente,pelo menos na vez de comprar ovos e também pudesse ter a sensibilidade de escrever as coisas que queria,ao invés de apenas me dizer;a Dona Jovem,dona da quitanda(que Deus a tenha),talvez tambem devesse colocar os ovos em bandejas,não em saquinhos!
E eu,não deveria querer demonstrar estar mais pronta para estas”missões”do que estava de fato,assumir vulnerabilidades é importante,não deve ser considerado vergonhoso ou imperdoável.
A Sensações dos meus segredos de fracasso tão gigantes para idade na época deformavam mais ainda minha auto imagem, parecia que a vida seria um eterno errar e tentar esconder o máximo possível, sentir-me terrivelmente azarada e triste por dentro( além dos milhares de complexo de inferioridade pela minha aparência que já carregava em mim) e por fora sempre sorrir e fingir estar tudo bem.
Hoje eu me lembrei dessa história porque duas coisas aconteceram logo pela manhã que me fizeram chorar de raiva:
1- Quebrei um aparelho caro que comprei para trabalho recentemente parcelado no cartão, e
2-enquanto atônita tentava arrumá-lo o tanque de roupas lá fora transbordou de água,pois eu estava enchendo para lavar a roupa suja quando entrei, molhando o chão inteiro inclusive um tapete de gramas e terei que colocar no sol para secar.
Senti-me de novo azarada e triste, pensei imediatamente em comprar outro aparelho e pagar caro nobamente!
Depois com um tubo de cola e alguns esquemas consegui “ajeitar” este mesmo.
Moral da história?
Nem tudo que se quebra deve ser abandonado de imediato; nem tudo que transborda,mesmo dobrando o nosso trabalho, merece nos fazer chorar quer seja de tristeza quer seja de raiva e nos fazer sentir incompetentes .
Nem todo dia será bom, nem todo dia bom começará bem; mas eu não preciso deixar todos os ovos lá no chão ,sem antes avaliar quantos ainda estão inteiros,nem engolir minhas frustrações pra não chegar em casa com os ovos quebrados demonstrando vulnerabilidades, nem me encher de culpa por falhar como se todas as outras pessoas do mundo fizessem tudo certo o tempo inteiro e apenas eu errasse.
É vida que segue, o sol sempre volta para mim e para você depois de algumas nuvens escuras neblinas ou tempestades, haja o que houver continuamos nosso caminho com a cabeça erguida assumindo nossos erros e tentando consertá-los.
De Ale Barcelos


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